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Luiz Carlos Merten

25 Setembro 2007 | 13h16

RIO – Fui dar uma olhada nos comentários de ontem e encontrei, lá no de Vertigo (Um Corpo que Cai), a correção – e não é que eu escrevi Melanie Griffith, a filha, pensando na mãe, Tippi Hedren? Deus do céu, um dia alguém ainda vai ter de interpretar esses meus atos falhos, agravados pelo fato de que eu não tenho muita paciência de reler meu material. Meu problema é esse. Se releio, eu quero modificar uma palavra aqui, outra ali, e termino fazendo outro texto. Isso também explica os erros de digitação. Deculpo-me, sorry, mas acho que vai ser difícil mudar. Mas quero voltar ao Festival do Rio 2007. Sou grande admirador de Maria Augusta Ramos e seu belo documentário Justiça. Vi ontem, na Première Brasil, Juízo e fiquei chapado. Maria Augusta filmou o tribunal da criança e do adolescente. Como a lei a impede de mostrar as caras de menores infratores, ela fez o que parece uma doideira. Filmou o teatro da Justiça – e a juíza Luciana Fiala de Siqueira Carvalho é maravilhosa; nenhuma atriz poderia ser mais dramática do que ela -, mostrando, nos planos mais gerais, os garotos e garotas de costas. Nos detalhes, Maria Augusta substituiu os menores por outros que também moram em áreas de risco e poderiam ser as próprias figuras levadas perante a juíza. Agora, imaginem – tudo é real, menos os menores infratores dentro da cena. Maria Augusta reconstituiu somente a parte deles, o que faz de Juízo um híbrido de documentário e ficção – a diretora diz que é cinema – dos mais instigantes. Fiquei siderado pela juíza e até já coloquei na minha matéria de amanhã, no Estado, que ela, se não existisse, teria de ser inventada. Sou passional, reconheço. Quando gosto, vou fundo. Ontem, Carla Ribas me localizou no Cine Odeon e foi me agradecer pelo duplo elogio, no blog e no jornal, à atuação dela em A Casa de Alice. Agradecer o quê? Eu é que tenho de agradecer. O trabalho é dela, eu meramente reconheço o mérito. Mas agora acho que vou lascar mais duas ‘sentenças’ de efeito. Maria Augusta Ramos talvez seja hoje a diretora (ou diretor, não importa o sexo)que melhor filma o embate entre o indivíduo e as instituições, no cinema brasileiro. Poderosa, a Guta. Volto à juíza. Quem acha que o capitão Nascimento de Wagner Moura é um herói devia ver Juízo. Heroína é a juíza Luciana. O capitão do filme é um homem em crise. Mata, tortura – que tenha gente capaz de achar um personagem daqueles um herói dá a medida da crise institucional que se vive hoje no País. É disso que trata o filme de Maria Augusta Ramos. Ela não escolheu impunemente, como um dos casos, o do adolescente que comete parricídio. A morte do pai possui valor simbólico. É a da própria autoridade. Para arrematar, o título. Juízo trata de uma sociedade que vive pedindo o que não tem – juízo – a suas crianças e adolescentes. O filme deve estrear somente em março do ano que vem. Proporciona um diálogo interessante com Tropa de Elite. O bom da Première Brasil é isso – as pontes que a gente vai fazendo sobre a produção nacional que vai dominar a programação dos próximos 12 meses nas salas de todo o País.