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Luiz Carlos Merten

20 Abril 2009 | 10h54

Não morro de amores por ‘Nunca Fui Santa’, mas teria de (re)ver o filme para ser duro com convicção. Uma coisa que me parece interessante é o seguinte – não sei se é a melhor interpretação de Marilyn (acho que não), mas perla primeira vez há uma diferença considerável na burrinha gostosa que ela costumava interpretar. Pois, desta vez, a loira burra só é gostosa para o caubói Don Murray, mas ele é tão ingênuo, ou inexperiente com mulheres, que acha que ela tem de ser conquistada no laço, como as vacas que ele derruba no campo. Escrecvendo isso, aqui, agora, até me deu vontade de (re)ver ‘Bus Stop’, que, traduzido literalmente, daria ao filme o título de ‘Parada de ônibus’. Na sequência, na carreira de Joshua Logan, veio ‘Sayonara’, adaptado de James Michener, em que Brando se apaixona por uma gueixa durante a guerra, no que não deixa de ser uma recriação de ‘Madame Butterfly’. A produção é um luxo; o sentimentalismo, piegas; e o astro começou a mostrar aqui que, se quando era bom era ótimo, quando era ruim conseguia ser o pior de todos. Logo começou a fase dos musicais. ‘Ao Sul do Pacífico’ baseia-se na opereta que Rodgers e Hammerstein adaptaram de James Michener (de novo). O filme possui péssima reputação. O mínimo que se diz é que é ‘kitsch’. É mesmo – ‘muito’ kitsch, mas ‘Ao Sul do Pacífico’ era distribuído pela Fox e já contei para vocês que meu cunhado, na época, trabalhava num cinema, o Moinhos de Vento, que exibia a produção do estúdio em Porto Alegre. ‘South Pacific’ ficou um tempão em cartaz. Devo ter visto umas ‘trocentas’ vezes. Gostava dos números ‘Those Enchanted Evenings’ e ‘ Bali Ha’i’ e o segundo é particularmente espinafrado pelos filtros de que se vale o cineasta para criar o clima de sonho que cerca a ilha mítica localizada onde ‘o céu encontra o mar’. O curioso é que, anos mais tarde, descobri que um desses grandes diretores ‘autorais’, não lembro se Jacques Rivette ou Eric Rohmer, colocou ‘Ao Sul dos Pacífico’ entre os melhores filmes do ano, nas listas organizadas por ‘Cahiers du Cinéma’. Não posso dizer nada sobre ‘Até os Fortes Vacilam’, que nunca vi, exceto que não me parece uma idéia muito boa de Logan haver colocado sua afilhada Jane Fonda, estreando no cinema, como par romântico de Anthony Perkins, no papel de um jogador de basquete, e isso menos pelo fato de o cara ser gay de carteirinha mas porque, naquele mesmo ano, Perkins, como Norman Bates, estava matando a mãe em ‘Psicose’, de Alfred Hitchcock. Para encerrar, gostaria muito de (re)ver os dois últimos filmes do diretor, dois musicais com fama de ‘pesadões’, mas que oferecem um contraponto perfeito entre si. Em ‘Camelot’, história do triângulo amoroso Arthur/Guinevere/Lancelot, a mulher desestabiliza a utopia da Távola Redonda. Em ‘Os Aventureiros do Ouro’, outro triângulo amoroso – no western –, a mulher age justamente como força contrária, agregadora dos homens e da sociedade. O próprio Logan considerava ‘Camelot’ um filme de beleza visual difícil de equiparar, quanto mais superar. Na lembrança, tendo a dar-lhe razão, por mais que Franco Nero seja risível cantando seu amor por Vanessa Redgrave. Nunca revi ‘Os Aventureiros’, mas até onde me lembro Lee Marvin e Clint Eastwood se saem melhor, o primeiro vocalizando ‘Wand’rin’ Star’, se bem que o melhor número, com Harve Presnell, o único que realmente cantava, seja ‘They Call the Wind Maria’. Decepcionado com sua carreira no cinema, Joshua Logan terminou a vida fazendo shows em night clubs, como stand up comic que satirizava a própria experiência em Hollywood. Tenho a impressão de estar demolindo com o cara, mas não. Embora Logan não tenha feito nenhum filme que mereça estar no meu altar de cinéfilo, existem fragmentos que me encantam em vários de seus filmes.