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Luiz Carlos Merten

20 Abril 2009 | 10h52

Marcelo Magalhães me provoca cobrando um post sobre Joshua Logan, que define como grande diretor estadunidense com cheiro de mato e painelista das vicissitudes do meio-Oeste dos EUA. E ele acrescenta – ou tu (eu, Merten) não gosta de ‘Picnic’ (Férias de Amor)? Vou decepcionar o Marcelo, mas não me sinto muito à vontade para falar sobre ‘Jesus’ Logan. Nem sobre ‘Férias de Amor’, que é obra de culto de Ruy Castro, Sérgio Augusto e até Claude Lévi-Strauss, que considerava a cena em que Kim Novak desliza pelo rio, ao som de ‘Ain’t She Sweet’, uma ópera. Em matéria de vicissitudes do meio-Oeste e de mentalidade classe-média de William Inge, sou mais Elia Kazan (‘Clamor do Sexo’) e John Frankenheimer (‘O Anjo Violento’). Adoro a fotografia de James Wong Howe e acho o máximo quando ele sobe na grua para mostrar o desenlace da história; Kim e William Holden dançando ‘Moonglow’ são aquilo que meu ex-editor Evaldo Mocarzel chamava de ‘paudurescência’ e Rosalind Russell e Arthur O’Connell simplesmente roubam o filme do par principal, mas a sociologia me parece meio de almanaque. Sobre a cena de dança, vale lembrar que nem Kim nem Holden sabiam dançar. A solução do diretor foi filmá-los da cintura para cima, fazendo com que a câmera rodopiasse ao redor dos dois para criar a sensação de movimento. Nos planos à distância, foram substituídos por dublês. Ah, a máquina de sonhos do cinema… Como tenho uma idéia meio vaga do filme, não me sinto à vontade para cair matando como fazem Tavernier e Cousodon em ’30 Anos de Cinema Americano’. Eles se perguntam como era possível ter gostado de ‘Férias de Amor’ sem parecer ridículos na época (anos 60) em que saiu o livro? Na reedição, ’50 Anos de Cinema Americano’, Tavernier e Coursodon se penitenciam da crítica excessiva, elogiam a foto, mas concluem, não muito animados, que se trata do filme ‘menos ruim’ de Joshua Logan. O próprio diretor tinha grande apreço por ‘Nunca Fui Santa’ (Bus Stop), no qual, segundo ele, Marilyn Monroe tem um de seus melhores papéis. Logan era especialista em Stanislawski, tendo estudado teatro na Academia de Moscou, quando decidiu, ainda jovem, que queria fazer carreira no show bizz. Marilyn, quando fez o filme, estava estudando no Actor’s Studio – puro Stanislawski – e se casando com Arthur Miller. Era a fase em que ela estava tentando ser levada a sério. O número ‘That (Old) Black Magic’ é antológico, mas não tenho muita certeza de que Chérie, a personagem de Marilyn, seja aquela que finalmente provou que ela sabia representar. Aliás, pode parecer preconceito e até admito que me ofereço para dar a cara a bater, mas MM é um daqueles ícones com os quais, ou o qual, tenho uma relação ambivalente. Gosto dela, claro, mas era tão excessiva, na feminilidade, por exemplo, que não admira que tenha virado ídolo gay. Deus me perdoe, mas Marilyn, como mulher, era fresca demais, aquilo que se chama de mulher ‘viada’. Todos aqueles trejeitos, aquela vozinha. Entendo perfeitamente quando Roy Ward Baker e Henry Hathaway diziam que não dava para saber se ela era ‘normal’. Claro, de perto ninguém é normal e, afinal, o que é essa tal ‘normalidade’? A verdade é que, fora das comédias de Billy Wilder e George Cukor e dos dramas de John Huston, confesso que ela me cansava. Foram os diretores que melhor incorporaram o mito aos papéis. O post está ficando longo. Vou fazer um break e continuar depois.