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Joselito ‘ruiseñor’

Luiz Carlos Merten

13 Dezembro 2008 | 23h02

Vivi hoje uma experiência curiosa. Para mim, os canais da TV paga chegavam ao 66 e eu, de preferência, ia do 61, onde começa a rede Telecine, ao 66, do Canal Brasil. Vivia zapeando, para lá e para cá. Minha ex-mulher Dóris, mãe da Lúcia, está em Sampa e veio me visitar. Comentei com ela sobre o canal 5Monde, ela me disse que era no 150. Nem sabia, vejam como sou desligado, que o espectro numérico da Net ia tão longe. Fui ao tal canal 150, resolvi retornar e cheguei por acaso ao 142, da TVE, TV espanhola. Dei de cara com aquele guri cantando. Tomei um susto – era Joselito. No final dos anos 50, enquanto se processava na França a nouvelle vague e o CPC da UNE gestava o Cinema Novo, o cinema espanhol, em pleno franquismo, era movido a fenômenos como os astros cantantes mirins Joselito e Marisol e, claro, pela diva Sara Montiel e seus atrozes melodramas. Para se lembrar de Joselito, o sujeito tem de andar por volta de 60 anos, como eu, mas ele fazia o maior sucesso nos cinemas brasileiros. O mundo todo mudava e o Joselito tinha, como se diz, um rouxinol na garganta. Foi uma experiência e tanto revê-lo hoje em seu segundo filme, ‘La Saeta del Ruiseñor’, dirigido, como o anterior ‘El Ruiseñor’ e os posteriores ‘El Ruiseñor de las Cumbres’, ‘Escucha Mi Canción’ etc, por Antônio del Amo Algarra, ou simplesmente Antonio del Amo, como se assinava normalmente. Esse cara pertenceu à geração da Guerra Civil espanhola e combateu na armada republicana, mas desenvolveu sua carreira cinematográfica sob o franquismo. Nos anos 30, como crítico, ele escrevia numa publicação influente da época, ‘Filme Popular’, defendendo um cinema engajado e comprometido com a mudança social. Numa cena do filme, Joselito abandona o pueblito e é levado a Sevilha, para se apresentar num programa de calouros, na rádio. A cena é digna de Almodóvar – aliás, espero voltar a entrevistar Almodóvar para lhe perguntar se, por acaso, esses filmes fizeram parte de seu imaginário infanto/juvenil. Que prato teria sido comentar o Joselito – e ‘La Saeta del Ruiseñor’ – com Bigas Luna, na entrevista que fiz nesta semana. De volta ao filme, o tal programa de rádio em que o pequeno herói se apresenta é patrocinado por Productos Dorotea, ‘que hacean bella la más fea’, como repete a toda hora o apresentador. Mas o que achei realmente interessante é o seguinte. Del Amo tem quatro ou cinco filmes que, segundo os críticos, são obras honestas e críticas sobre a Espanha dos anos 40 e 50, mas, de resto, a avaliação que se faz dele é de um cara que renegou seu princípios e passou a fazer um cinema alienado e alienante. Pior que isso – um cinema comprometido com o regime. Tenho para mim, pelo que vi em ‘La Saeta del Ruiseñor’, que Del Amo não era burro, não, ou então, como dizia Godard, toda ficção é sempre um documentário sobre a época em que foi feita. O filme é de 1957 e uma série de signos e referências têm a ver com o atraso da Espanha de Franco em relação ao restante da Europa, ao excesso de religiosidade do povo espanhol como um entrave ao desenvolvimento e a importância conferida aos norte-americanos para alavancar o país. Como Carlitos em ‘Luzes da Cidade’, Joselito se envolve com uma menininha cega e resolve juntar dinheiro para que ela consiga ver. Cai de pára-quedas na história um gringo que todo mundo pensa que é o empresário que vai dar projeção ao garoto. O cara tem um carrão dirigido pela filha, uma loira fake nascida de mãe espanhola. Joselito e o namorado de sua irmã, um tipo meio espertalhão, mas do bem, viajam num fordequinho que sofre uma pane e anda para trás, entrando num túnel. Pegam carona no carrão de Mr. Marshall e chegam à cidadezinha recebidos com fanfarras. Tudo isso podia ser produto do acaso, mas hoje pode ser visto como um retrato metafórico muito interessante da Espanha no fim dos anos 50. Perguntei-me, depois de ver o filme, que fim teria levado Joselito? Que fim levou Marisol, que era a Joselito loirinha e de fita (não vou dizer de saia)? O guri era um monstro cantando. Tinha uma garganta de ouro, segurando os agudos nas tais ‘saetas’ durante minutos. Um vozeirão, na contracorrente do que viria a ser, por exemplo, a doçura de João Gilberto na Bossa Nova. O negócio de Joselito era soltar a voz, e como ele soltava! Existe esse momento – é quando os gringos o ouvem pela primeira vez – em que ele canta no alto do monte e o eco fica repetindo sua voz, como se ele estivesse cantando em vários canais ao mesmo tempo. Recorri à internet. Joselito não resistiu à passagem para a vida adulta, mas sua vida daria um romance, ou um filme – que Almodóvar bem poderia realizar. Ele foi ser mercenário na África e, mais recentemente, participou de um reality show chamado ‘Sobreviventes’, na TV da Espanha. Estou até agora atordoado, perdido nas lembranças entre Saras, Joselitos e Marisóis. Preciso me recuperar logo. Daqui a pouco começa o último capítulo de ‘Capitu’ e eu não quero perder o final da microssérie de Luiz Fernando Carvalho.

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