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Luiz Carlos Merten

28 Novembro 2010 | 13h12

Cheguei ontem no início da noite a São Paulo. Tive tempo de passar em casa, me desembaraçar de malas e quetais, e fui ao teatro, o Tuca, para ver meu amigo Rodolfo Vaz em ‘O Amor e Outros Rumores’, adaptado de contos de Murilo Rubião. Achei o espetáculo bem interessante e no final encontrei Débora Fallabela, sempre bela (até no nome) e talentosa. Trocamos duas ou três palavras sobre a peça e também sobre ‘Meu País’, seu novo longa, com direção de André Ristum. Ao chegar em casa, olhem a curiosidade, encontrei o DVD com o trailer do filme, que o diretor se havia comprometido a me enviar, e ele promete bastante. Débora, Rodrigo Santoro, Cauã Reymond. A propósito de Cauã, estou na redação do ‘Estado’, fazendo os filmes na TV de amanhã. O Canal Brasil exibe segunda, na seleção do mês, ‘Se Nada Mais Der Certo’, também com Cauã (e Carolina Abras, João Miguel, Milhem Cortaz). Ao digitar o nome do diretor, José Eduardo Belmonte, me caiu a ficha. Ontem, ao citar ‘A Concepção’, troquei seu nome para José Carlos e o próprio Belmonte fez a corrupção, num comentário sobre o post. Sorry, cara. Aproveito para falar das distorções de mercado. O terceiro longa de Belmonte já está na TV paga e o segundo, ‘Meu Mundo em Perigo’, de 2007, ainda não estreou nos cinemas (mas parece que agora vai, em dezembro). Até pelo teor do post, ficou claro que não tenho muito apreço por ‘A Concepção’, mas é um filme que sempre penso em rever. Era jurado em Brasília no ano em que o filme concorria e fui guerreiro para que uma chuva de Candangos caísse sobre ‘Eu Me Lembro’, de Edgar Navarro, o que significava minimizar os prêmios para ‘A Concepção’ e ‘Veneno na Madrugada’, de Ruy Guerra, que também concorriam. Sobre o filme de Ruy, muita mise-en-scène por nada, estou tranquilo, mas tenho hoje minhas dúvidas sobre ‘A Concepção’ e justamente por isso gostaria, mais uma vez, de tirar a teima. Já revi ‘A Concepção’ na TV e o filme continua não me agradando, embora tenha alguma coisa (o olhar sobre a classe média fodida?) que pode ser, ou é, o embrião para os demais longas do autor. Ocorre que os outros dois filmes de Belmonte, ‘Se Nada Mais Der Certo’, que vi no Festival do Rio antes de ‘Meu Mundo em Perigo’ , me apanharam de um jeito que hoje, de minha parte, vivo em lua de mel artística com o cara. Estou nos cascos, esperando pela estreia de ‘Meu Mundo em Perigo’ para poder falar (bem) dele. De volta a ‘O Amor e Outros Rumores’, o espetáculo terá hoje sua última apresentação, mas voltará em janeiro, no mesmo Tuca. Há um prólogo e um epílogo que amarram, dramaturgicamente, os três textos selecionados e essa amarração vem por meio de um personagem, um bizarro coelho, que remete a David Lynch. Até o cenário – desnudo, com várias portas – parece saído de ‘Império dos Sonhos’, que, a propósito, também estará amanhã na TV Paga (às 16 horas e pouco, no Telecine Cult). Esse diálogo teatro/cinema me atiçou, mas não é só por isso que ‘O Amor’ merece ser visto. É, no limite, pelo texto do próprio Murilo Rubião. Um cara que escreveu, em seu último texto (‘O ex-mágico da Taberna Minhota’) o que vocêss vão ler a seguir só merece atenção, e respeito. “Hoje sou funcionário público e este não é o meu desconsolo maior. Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores. Tal não aconteceu comigo.” A vida como preparação para o sofrimento, a arte como redenção – o teatro, o cinema. Tudo isso tem estado em pauta aqui no blog.