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Luiz Carlos Merten

05 Novembro 2008 | 18h19

Volto ao Jonathan Demme, nem que seja só para encerrar a série. Como todo mundo, fiquei muito impressionado quando vi ‘O Silêncio dos Inocentes’ e o filme ganhou o ‘big five’, os principais Oscars de 1991, nas categorias de filme, diretor, ator (Anthony Hopkins), atriz (Jodie Foster) e roteiro (Ted Tally, que adaptou o romance de Thomas Harris). Pouquíssimas produções lograram isso na história do cinema e eu acho que as duas anteriores, ‘Aconteceu Naquela Noite, de Frank Capra, nos anos 30, e ‘Um Estranho no Ninho’, de Milos Forman, nos 70, continuam sendo as únicas. Não conhecia o personagem do canabal Hannbal Lecter e só depois vim a saber da adaptação pioneira de Michael Mann, ‘Manhunter’ (Caçador de Assassinos), de 1986. Achei, na época, a psicanálise selvagem que Demme fazia da violência nos EUA, via Hannibal, uma coisa brilhante, mas confesso que, nas sucessivas vezes que revi o filme, principalmente na TV paga, meu entusiasmo foi arrefecendo, embora o clima maligno seja uma coisa realmente doentia, que eu só encontrei antes em ‘Psicose’, de Alfred Hitchcock, e depois no ‘Seven’, de David Fincher, sobre o qual falamos outro dia. Também gosto muito da atuação ‘controlada’ de Anthony Hopkins, um ator que vai aos extremos e quando é bom, é ótimo, da mesma forma que quando é ruim, é péssimo – aqui, ele nunca foi melhor e o que eu guardo, a primeira coisa que me vem à lembrança, é a dicção, aquela fala falsamente tranqüilizadora e algo flagelada (não sei se me entendem). Na seqüência, surgiu ‘Filadélfia’ e eu confesso que, como todo mundo, também me decepcionei, num primeiro momento, mas depois a reação foi inversa e eu passei a gostar cada vez mais do filme do Demme. Não é, como parece, a história de um aidético em choque com o sistema – isso é secundário na reflexão do diretor –, mas é, o que me parece mais interessante, na perspectiva de 15 anos atrás, quando foi feito, um filme sobre um homófobo que aprende a respeitar e aceitar o outro. Neste sentido, é mais sobre o personagem de Denzel Washington do que sobre o de Tom Hanks, com aquela cena da ópera ‘Andrea Chénier’ – a ária ‘La Mamma È Morta’ – que passa, mais do que qualquer outra imagem que tenha visto na tela, o estranhamento do heterossexual diante dos excessos do imaginário gay. Acho a cena, inclusive, muito corajosa do ponto de vista da interpretação do ator, Hanks, que ganhou o Oscar, mesmo não sendo, a rigor, o protagonista. Após este ápice, começou a fase errática de Jonathan Demme e só agora ele dá sinais de ressurgimento e vida inteligente, com ‘O Casamento de Rachel’. Nesta série de filmes sobre família que temos tido ultimamente, achei um dos melhores, talvez o melhor, e a atuação de Anne Hathaway na cena em que esbofeteia a mãe, Debra Winger – que confiou a ela, uma junkie, o irmão e Anne matou o garoto num acidente de carro –, um daqueles momentos raros e terríveis que uma câmera consegue captar, a completa metamorfose de um ator, ou atriz, no outro. Não quero avançar muito sobre ‘Rachel’. Vamos deixar para falar mais na estréia. Demme, de qualquer maneira, está de volta e isso é bom.

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