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Luiz Carlos Merten

05 Novembro 2008 | 12h46

Tentei rever outro dia, na TV, o primeiro longa de Jonathan Demme, ‘Confissões Íntimas de Um Presídio Feminino’, que ele fez em 1974, apadrinhado por Roger Corman, mas não consegui assistir a mais do que dez minutos. Era de madrugada, na TV aberta. Achei horrível. Passo também por cima de ‘Loucura da Mamãe’, ‘Pelos Meus Direitos’ e ‘Citizen’s Band’. Se tivesse seguido por aí, Demme teria ido diretamente para o brejo. Alguma coisa se passa com ‘O Abraço da Morte’, thriller hitchcockiano de 1979, com uma partitura deslumbrante de Miklos Rosza mimetizando Bernard Herrmann e um desfecho nas cataratas de Niágara como se ‘Torrentes de Paixões’, de Henry Hathaway, com Marilyn Monroe, estivesse sendo refeito pelo mestre do suspense. Mas o filme ainda é uma colcha de retalhos, de um diretor sem muita personalidade. ‘Melvin e Howard’ me agradou, na época – 1980 –, mas teria de rever o filme para opinar com firmeza. De qualquer maneira, foi o primeiro filme de Demme indicado para o Oscar, e ganhou o de coadjuvante para Mary Steenburgen. Mesmo me arriscando a levar pedradas, acho sua visão de Howard Hughes mais curiosa e intrigante do que a de Martin Scorsese no mistificador ‘O Aviador’ (que rima infame!). Alguns filmes e documentários (de música) depois, Demme recomeça, ou começa de verdade, com ‘Totalmente Selvagem’ (Something Wild), em 1987, o auge de Melanie Griffith, mais até do que em ‘Dublê de Corpo’, como essa loira – desequilibrada, como toda loira de Hollywood que não é burra –, que arrasta o yuppie Jeff Daniels numa viagem sem volta. Adoro ‘Totalmente Selvagem’, que tem aquela trilha pós ‘Stop Making Sense’ (e Talking Heads). Demme pega um personagem emblemático da era Ronald Reagan, o yuppie, e o subverte. Nos filmes dele daquela época, existe sempre o louco solitário em guerra contra o sistema corporificado em fascistas que detêm o poder econômico e/ou sexual (mais tarde esta idéia voltará em ‘Sob o Domínio do Mal’). Melanie Griffith, na fase pré-plástica, arrasta Jeff Daniels pela via da transgressão e ao som de Celia Bruz, David Byrne e Sonny Oko-Sun, numa trilha que muitas vezes substitui o diálogo. Isso é raro em Hollywood, onde quase sempre reina o palavrório explicativo e a canção ainda reforça o dito, para que o espectador entenda tudo bem direitinho. Demme meio que repete a fórmula em outra comédia policial com Michelle Pfeiffer, ‘De Caso com a Máfia’, em que a heroína arrasta outro babaca, este um agente do FBI (Matthew Modine), numa nova viagem musical que inclui até não me lembro que grupo brasileiro batucando ‘Zazueira’, de Jorge Ben Jor. Depois disso, a via está aberta para ‘O Silêncio dos Inocentes’ e a consagração no Oscar. Vou almoçar e correr para uma cabine. Na volta sigo com Jonathan Demme.