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Luiz Carlos Merten

05 Novembro 2008 | 12h08

Quem foi mesmo que me pediu para falar sobre Jonathan Demme? Gostei tanto de ‘O Casamento de Rachel’… Talvez tenha exagerado, mas não me me lembro mais se foi no blog ou no jornal – quando assisti ao filme no Festival do Rio, tasquei logo que era o melhor filme do evento. Tive a mesma sensação visceral que experimentei no ano passado ao assistir, também no Rio, a ‘Sombras de Goya’, do Milos Forman, e ‘O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford’, de Andrew Dominik. Reconheço que podem não ser filmes perfeitos – e que deve ser fácil para seus detratores encontrarem os defeitos que quiserem procurar; eu próprio os reconheço –, mas o ganho é maior e a experiência de ver esses dois filmes foi muito forte. Com ‘Ratatouille’ e os dois nacionais, ‘Santiago’ e ‘Jogo de Cena’, foram os ‘meus’ filmes marcantes de 2007. Cada vez acho que busco mais no cinema esse tipo de experiência, e intensidade. Experimentei ontem essa epifania revendo ’24 City’, de Jia Zhang-ke, à noite, na respescagem da Mostra, no Cine Bombril. Teve gente que saiu no meio – duas meninas à minha frente –, na lateral, um amigo dormiu, e eu ali em êxtase com o jogo de cena de Zhang-ke, com seu documentário que é pura mise-en-scène, com atores reconstituindo os depoimentos que ele colheu sobre este novo capítulo de sua (eterna) indagação sobre as mudanças ocorridas na China e o que elas representam em termos humanos. Divago. Vou voltar ao Jonathan Demme, cuja carreira entrou em parafuso com o fracasso de público de ‘Bem-Amada’ (Beloved), há dez anos. Não saberia dizer se o filme é tão ruim como garante sua (péssima) reputação. Apaguei o ‘Beloved’, e olhem que me lembro que, na época, fui com muita sede ao poste, porque achei Oprah Winfrey, em ‘A Cor Púrpura’, uma coisa de louco. Nem sei quem ganhou o Oscar de melhor coadjuvante daquele ano – 1985 –, mas com certeza não deve ter sido uma atriz melhor do que Oprah, porque não havia. Ela é genial em ‘A Cor Púrpura’. Malditas injustiças do Oscar. Já em ‘Beloved’… A última década foi difícil para Demme, mas havia alguma coisa em seu remake de ‘The Manchurian Candidate’, embora a nova versão de ‘Sob o Domínio do Mal’, com Denzel Washington e a poderosa Meryl Streep, não fosse tão boa quanto o original de John Frankenheimer, de 1962. ‘Rachel’ consolida o ressurgimento de Demme? Espero que sim. Gostei tanto do filme. Vamos por partes.