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Luiz Carlos Merten

01 Novembro 2008 | 20h45

Quase perco o gancho – os cariocas estão tendo a oportunidade de assistir ao Festival Internacional de Curtas do Rio, o Curta Cinema 2008. Daqui a pouco, às 21h30, se estivesse no Rio estaia tomando o rumo da Cinelândia para assistir, no Cine Odeon BR, a um programa com os curtas de Jonas Mekas. Jonas é irmão de Adolfas Mekas. Jonas fundou a revista ‘Film Culture’ e também a Filmmakers Cooperative, tendo sido, ou sendo – ainda está vivo -, um dos principais animadores da busca por um cinema independente, alternativo a Hollywood, nos anos 60. Até hoje ele desenvolve um projeto muito curioso, que é o seu diário filmado. Jonas filma tudo o que ocorre com le, ao seu redor. O programa de hoje é formado por vários curtas que compõem, uma fração – mínima – do seu ‘diário’. Mais curioso ainda é que somente Adolfas tenha verbete no ‘Dicionário de Cinema’ de Jean Tulard, embora o texto se refira aos filmes como sendo dos dos irmãos. Tive minha experiência com eles quando cursava a Faculdade de Arquitetuira, em Porto Alegre, nos anos 60. Eram os anos da ditadura militar e realizavam-se, no auditório, por iniciativa do Dafa, o Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura. Foi lá que assisti pela primeira vez os curtas de Alain Resnais – e fiquei louco pela arquitetura ‘dramática’ de ‘Van Gogh’ e ‘Gauguin’. Foi lá também que vi meu primeiro Satyajit Ray, ‘Rabindranath Tagore’, sobre o grande poeta e tenho agora de bater no peito e lamentar que não tenha dado o destaque merecido, ocupado que estava com a Mostra, ao ciclo sobre a nouvelle vague do cinema indiano, que termina amanhã no CCBB. Não creio que ainda seja possível assistir à trilogia de Apu, do Ray – ‘Pather Panchali’ (A Canção da Estrada), ‘Aparajito’ (O Invencível) e ‘Apur Sansar’ (O Mundo de Apu) -, que descobri bem mais tarde. Já falei aqui que meu irmã trabalhava na Varig e levava para casa os exemplares do ‘The New York Times’ que sobravam nos aviões da companhia. Eu já era apaixonado por cinema, mas não sabia que um dia viveria de escrever sobre. Olhava aqueles anúncios no ‘NYT’, com filmes do Bergman e do Satyajit Ray. Muitos daqueles Bergman (no plral) a gente via, ou viu, aqui. Satyajit Ray era mais difícil, até no circuito alternativo, mas quando finalmente vi os filmes dele foi uma revelação. Ray começou a fazer cinema influenciado por Jean Renoir, quando o patrão do cinema francês – e patrono da nouvelle vague – foi filmar ‘O Rio Sagrado’ na Índia. Renoir foi decisivo da sua vocação, mas ele tambem amava John Ford e o neo-realismo e tudo isso alimentava seu cinem, que muito me encantava. Estou me desviando do assunto principal do post, porque no auditório da Faculdade de Arquitetura também assisti a ‘Guns of the the Trees’, creditado a Jonas, e a ‘Hallelujah the Hills’, de Adolfas. Sei que o próprio Godard era louco pelos irmãos e eu guardo uma lembrança vaga, mas – paradoxalmente – muito forte de ‘Guns’ porque quando me lembro do filme vem também a música. O filme conta a história de dois jovens casais que vivem sob a ameaça da bomba atômica na cidade. Um é formado por brancos deprimidos e outro por negros confiantes. Interessante eu me lembrar disso justgamente agora. Acho que Jonas, que fez seu filme em 1961/62, quando o racismo era instituído em vários Estados norte-americanos, intuiu que aquela seria uma década marcada pelos luta por direitos civis. E agora, mais de 40 anos depois, na terça-feira, um negro, Barack Obama, poderá chegar à presidência dos EUA. Vou parar porque senão não dá tempo de algum caruoca desgarrado, lendo este post, correr ao Odeon. E também porque essa viagem em busca do tempo perdido vai terminar me emocionando e eu vou ficar piegas. Posso não ter concluído o curso de arquitetura, mas minha passagem por aquela faculdade foi fundamental. Foi lá, no mural livre dos alunos, que comecei a escrever sobre cinema e também que conheci a Dóris, minha ex-mulher, mãe da Lúcia. O simples nome de Jonas Mekas está tendo o efeito de uma madeleine para mim…