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Luiz Carlos Merten

08 Maio 2009 | 09h45

PARIS – Ainda estou sob o impacto de ‘Still Walking’, o novo Hirokazu Kore-eda, que tem algo a ver com ‘La Ventana’, apesar de todas as diferenças entre o grande autor japonês e o argentino Carlos Sorín. Que p… filme! Prometo voltar a ele, nem que seja ao regressar ao Brasil, mas o problema é que aqui em Paris existem sempre 1001 coisas para se ver e falar. Por exemplo. Está ocorrendo, no Action Christine, um ciclo chamado ‘Deux Monstres Sacrés’, dedicado a Bette Davis e Joan Crawford. Naturalmente que ‘O Que Terá Acontecido a Baby Jane?’, de Robert Aldrich, é uma das pérolas da programação, mas ontem não resisti e vi ‘Juarez’, a cinebiografia do republicano mexicano, que William Dieterle realizou em 1939. Fui ver pela curiosidade e assisti a um filme que me perturbou muito. Dieterle havia feito teatro com Max Reinhardt na Europa, antes de virar, nos EUA, um dos artífices do filme noir. O roteiro de ‘Juarez’ é co-assinado por John Huston, que viraria diretor, dois anos mais tarde, com ‘Relíquia Macabra’, aliás, ‘The Maltese Falcon’, O Falcão Maltês, adaptado de Dashiell Hammett, com Humphrey Bogart na pele de Sam Spade (ufa! Acertei). O filme se constrói no choque entre as personalidades do arquiduque Maximiliano (Brian Aherne), que Napoleão 3º erigiu em imperador do México, num plebicisto fraudado, e o ex-presidente Juarez (Paul Muni), que não desiste do sonho republicano e leva sua presidência itinerante, numa carruagem, pelo país. Ambos, o imperador e o presidente, são progressistas que querem criar um mundo melhor para os camponeses mexicanos. Maximiliano fala o tempo em sacrificar-se pelo povo, pelo ‘seu’ povo, sem se dar conta de que é um estrangeiro (e, mesmo sem querer, um usurpador). Separa-os, Maximiliano e Juarez, uma palavra, ‘democracia’, e na verdade o filme fala sobre o que ocorria no mundo, há 70 anos, quando ia eclodir a 2ª Guerra. Bette Davis faz a imperatriz Carlota e tem cenas de intenso lirismo, dentro daquele rigoroso claro/escuro que era a herança expressionista que todos aqueles alemães (Dieterle, Siodmak, Fritz Lang) levaram para Hollywood. E a trilha do Korngold… Pelamor de Deus! O final é pura fantasia hollywoodiana. Juarez, depois de vencer e matar Maximiliano, visita o esquife do ‘inimigo’ para pedir-lhe perdão. Lembrei-me de ‘Tarzan e o Leão de Ouro’, quando o homem-macaco visita o túmulo de Nemone, a rainha despótica que combateu, para prestar-lhe, à luz do luar africano, uma derradeira homenagem. A cena é de um romantismo incrível e ficou para sempre na minha memória. Lembrei-me dela graças à liberdade poética de Dieterle e Huston, que podem ter traído a história real, mas estavam preocupados em discutir questões éticas relativas ao papel do indívíduo e do Estado, numa época em que o nazismo iria agravar todas essas questões. Vale ressaltar que também reestreou, em Paris, ‘Julgamento em Nuremberg’, de Stanley Kramer, em cópia nova. Cheguei um dia atrasado. Na terça à noite, quando desembarcava em Charles De Gaulle, houve um debate reunindo críticos e historiadores sobre o filme de Stanley Kramer, que também trata dessas mesmas questões. Quero (re)ver ‘Julgamento’, desse cineasta tão execrado pela minha geração (e todas as demais que se seguiram e, possivelmente, seguirão). Embora a situação atual de crise não seja a da Alemanha que aderiu ao nazismo, esses filmes não deixam de refletir sobre males que nos atingem, aqui e agora. Vou sair para almoçar. Estou no hotel, por causa da participação no programa da rádio Eldorado. Só para deixá-los com inveja, daqui a pouco (5 horas da tarde, horário local) pretendo ver…. ‘Les Trois Royames’ (Os Três Reinos). Sabem o que é? ‘Red Cliff’, o filme chinês, de artes marciais, de John Woo, com Tony Leung, Takeshi Kaneshiro, Zhang Fengyi e Chen Chang. Se vocês torceram o nariz… Sorry, mas erraram de blog. Eu estou louco para ver ‘Três Reinos’. Espero por isso desde que, há anos, ouvi falar do filme.