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Cultura » De novo, John Wayne

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Luiz Carlos Merten

27 Junho 2007 | 12h49

Pôxa, Valls, que história impressionante essa que contaste sobre a tentativa de protesto contra Os Boinas Verdes em Porto. E o Jorginho Basso – que coisa, cara. Me lembrei de Garagem Olimpo, a que assisti em Cannes. Um daqueles filmes em que, às vezes, eu entro por azar (ou sorte, na verdade). Tinha lá uma horinha vaga, era a sessão mais à mão e eu fui ver aquela história sem saber que era sobre a repressão na Argentina, em que a garagem é usada como camuflagem para torturadores e na qual as vítimas são lançadas ao mar, de aviões. Tomei um choque. Fiquei deprimido de me arrastar pela Croisette, mas gostei demais daquele filme, muito mais do que de Crônica de Uma Fuga, que integrou a competição no ano passado. São histórias tão terríveis que colocam em xeque o próprio humanismo da gente, porque a revolta é tão grande que é preciso conter o revanchismo. Quanto ao John Wayne – foi e ainda um dos meus ídolos. O que ele representava no cinema do Ford, do Hawks, do Hathaway é fora de série. E houve A Primeira Vitória, que é um dos mais belos filmes do Preminger. Wayne chama-se Rockwell Torrey e, como sempre, o personagem dele é uma rocha, em oposição ao militar de Kirk Douglas, que é instável, emocionalmente. O fim daquele filme é uma das coisas mais comoventes que conheço. Wayne é durão, tenta passar a imagem de auto-suficiente o filme todo. No ataque a Pearl harbor, ele é atingido, acho que perde uma perna. No hospital, quando volta da anestesia, fragilizado, Patricia Neal está do lado dele. Não dizem nada. Não é preciso. Acho aquilo tão bonito que desabo. Nenhum homem é uma ilha. Filmaço! Sempre houve essa controvérsia do Wayne reaça. Na entrevista que fiz com a nora dele, Gretchen, ela reforçou a tese de que Wayne tinha convicções que faziam dele um reacionário, mas o Duke nunca quis que os filhos e pessoas que trabalhavam com ele seguisssem suas idéias. Ele incentivava todo mundo a ter idéias próprias e a defendê-las, com respeito às idéias dos outros. O mundo mudou desde então. Lembro-me da frase de Godard – como posso amar John Wayne quando ele abre os braços para acolher Natalie Wood no desfecho de Rastros de Ódio e detestá-lo quando sustenta a candidatura do republicano Barry Goldwater à presidência dos EUA? Goldwater perdeu em 1964, mas a longo prazo o derrrotado virou um vencedor. Tudo o que ele defendia virou o credo neoliberal que alicerçou a globalização. Estou abrindo demais o post e me tornando, talvez, dispersivo, mas Wayne, como Tom Doniphom, vivendo obscuro em O Homem Que Matou o Facínora, enquanto o senador Stoddard cria uma persona política em cima do que o outro fez, é coisa de gênio. Eu também amo O Homem Que Matou o Facínora. Com Rastros de Ódio e Depois do Vendaval, forma a minha trinca de Fords preferidos.

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