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Luiz Carlos Merten

05 Março 2007 | 18h31

Na verdade, me desviei um pouco do meu objetivo ao redigir o post anterior sobre John Wayne. O que queria postar é o que sai agora. Fui fazer uma consultoria nas novidades da 2001 (www.2001video.com.br) e descobri que a Magicline, não a Paramount, está lançando um filme pelo qual sou louco. O Rastro da Bruxa Vermelha, de Edward Ludwig, com John Wayne, Gail Russell, Luther Adler e Gig Young, de 1949, é a mais bela de todas as aventura nos mares. Será mesmo ou é só na minha imaginação? Em Porto Alegre, havia um crítico que foi muito importante (morreu há alguns anos). Jefferson Barros possuía grande cultura e erudição e era dotado de uma sensibilidade com a qual me identificava. Amávamos Visconti, Losey e Godard, os westerns mais que os musicais, e um dos nossos assuntos preferidos era o grande filme do Edward Ludwig. Eu adorava a história de caça ao tesouro, a complexidade das relações entre personagens e o tema do amor maior que a vida, mesmo que o roteiro me parecesse um pouco confuso (e isso, na verdade, era um dos charmes do filme). O próprio John Wayne amava O Rastro e tirou deste filme o nome de sua empresa produtora, a Batjac, que produziu verdadeiros clássicos. Jefferson sempre fez uma ponte entre Ludwig, imigrante russo que fez carreira em Hollywood (e chegou a ser considerado, por um círculo de admiradores tão fiéis quanto entusiasmados, o maior dos diretores desconhecidos), e o Losey. Via no sentimento de opressão do Ludwig, na claustrofobia em seu navio submerso, a origem das relações vampíricas de Losey, em filmes como Estranho Acidente e Cerimônia Secreta, com todas aquelas portas que se fecham sobre os personagens como se fosse para isolá-los do mundo e encerrá-los num desterro interior sem volta. Losey, um marxista que trabalhou com Brecht no teatro, entrou para a lista negra do macarthismo e teve de se exilar na Europa. Seu cinema trata de temas sociais, mas é fundamentalmente um cinema de personagens, que ele transforma em símbolos da realidade. Losey é hoje em dia quase tão desconhecido quanto Ludwig. Na França, há sempre um ciclo de filmes dele, mas aqui, até hoje, eu espero por Eva, que Losey adaptou do James Hadley Chase, com Jeanne Moreau, no começo dos anos 60. Embora não se inclua na tradição americana, Eva é o mais noir de todos os filmes. Passa-se em Veneza, cidade-berço do capitalismo, onde um escritor célebre, mas que usurpou o livro que lhe deu fama do irmão que morreu, se envolve com uma prostituta que o domina e humilha, numa relação sado-masoquista que Losey filma com rigor brechtiano – e olhem que o cinema não é o melhor meio para o distanciamento crítico teorizado pelo autor de Mãe Coragem. Corram na 2001, vejam O Rastro da Bruxa Vermelha e depois digam se é delírio meu.