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Luiz Carlos Merten

30 Janeiro 2011 | 12h53

CARMO DO RIO CLARO – Em Tiradentes, havia deixado passar em branco a morte de John Herbert. Ontem, morreu Geórgia Gomide. As duas coisas não estão necessariamente ligadas, mas John Herbert e Geórgia compartilharam o elenco de ‘Malhação’, não me lembro se também o de algum filme. Ele participou das chanchadas da Atlântida. Fez uma das minhas preferidas, ‘O Petróleo É Nosso’, com Violeta Ferraz. Integrou a aventura da Vera Cruz, com ‘Candinho’, ‘Floradas na Serra’ etc. Nos anos 1960, filmou com Luiz Sérgio Person (‘O Caso dos Irmãos Naves’) e Walter Hugo Khouri (‘O Palácio dos Anjos’). John Herbert dirigiu, nada muito marcante, mas de repente me bate uma nostalgia. Tenho 65 anos e, quando garoto, em Porto Alegre, eu via muita televisão. Adorava enlatados norte-americanos, principalmente westerns e aventuras, mas fui, desde a primeira hora, um espectador assíduo de ‘Alô, Doçura’. Adorava ver John Herbert e Eva Wilma. Como proposta de sitcom nacional, ‘Alô. Doçura’ era muito simples, quase esquemática, mas eu me divertia com aqueles dois e, na mistura que muitas vezes se faz na cabeça do público, confesso que foi como se um casal de amigos se separasse quando, anos mais tarde, John e Eva seguiram cada qual seu caminho. Eram tão belos, tudo parecia tão ‘feliz’ para eles. Não tenho vergonha de contar/confessar essas coisas, mas, quando jovem o defeito físico começou a pesar na minha vida. Quando menino, tudo bem, mas a adolescência é uma fase complicada, que a deficiência agravou. Não comentava com ninguém, mas duvidava, internamente, que fosse ter relacionamentos duradouros, que fosse ter relacionamentos, ponto. Os problemas que enfrentei mais tarde nunca foram por causa do meu defeito físico, mas, naquela época… Acho que a minha paixão pelo cinema vem um pouco daí. Sempre esbaldei o Id no escurinho do cinemas, graças à famosa identificação projetiva. A crítica veio depois. Dentro do mesmo princípio, eu acho que idealizava as participações de John Herbert e Eva Wilma em ‘Alô, Doçura’. Acho que o fato de John ter sido um homem bonito – e ele era – talvez tenha limitado um pouco sua carreira. Bastava para ele a boa estampa para fazer TV e cinema. Não me lembro de papeis marcantes, daqueles que a gente pudesse dizer de John Herbert que era um puta ator. Mas ele sempre esteve presente em minha vida. Morreu velhinho, mais de 80 anos. Li na internet que o filho cantou em seu enterro. Essas coisas me sensibilizam. Lembrar-me de John Herbert está me fornecendo uma madeleine. Cá estou eu de volta à minha juventude. Não sou nostalgico. Piegas, talvez, um pouco, fazer o quê. Não choro o tempo perdido, mas é incrível como pessoas que a gente nunca conheceu pessoalmente possam fazer parte, de forma tão intensa, do nosso imaginário.

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