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Luiz Carlos Merten

03 Abril 2009 | 15h58

Frankenheimer estreou em 1956, com ‘No Labirinto do Vício’, que eu vi no antigo Cine Rival, em Porto Alegre. O filme seguia a vertente de ‘Juventude Transviada’, mas sem Nicholas Ray e James Dean, com James MacArthur como jovem que flerta com a deliquência para suprir o abandono do pai. Era muito garoto quando vi o filme, mas nunca esqueci o MacArthur e o filme me marcou pelo que hoje parece ridículo – não sei por que, mas em vez de labirinto eu dizia ‘labarinto’ e no colégio, o Júlio de Castilhos, que ainda era na Riachuelo, me envolvi numa briga a socos porque um colega de origem portuguesa, de quem não lembro o nome, achou graça da minha ignorância. Arranquei sangue daquele portuesinho e quase fui expulso, ave Maria! Já era esquentadinho naquela época, e meio delinquente, como o personagem do MacArthur. Frankenheimer demorou cinco anos para fazer o segundo filme, ‘Juventude Selvagem’, o primeiro com Burt Lancaster, que era bem intencionado – como ‘Burning season’, mais tarde -, mas não era tão bom. A partir daí, o diretor enfileirou ‘O Homem de Alcatraz’, ‘O Anjo Violento’, ‘Sob o Domínio do Mal’ (The Manchurian Candidate, a primeira versão, que virou cult), ‘Sete Dias de Maio’ e ‘O Trem’, no qual substituiu Arthur Penn, a pedido do ator e produtor Lancaster, que não se entendera com o diretor. Comprei ‘O Trem’ numa liquidação, nas Americanas (a troco de banana), mas o filme deve estar na minha casa soterrado sob dezenas (centenas?) de outros DVDs que vou empilhando. Uma coisa de que gostava muito nos primeiros filmes de Frankenheimer era a fotografia em preto e branco, algumas vezes assinada pelo craque James Wong Howe (a de ‘O Segundo Rosto’ é esplendorosa). ‘O Anjo Violento’, de 1962, me causou forte impressão, um pouco pela dupla Warren Beatty/Eva Marie Saint, mas também pela descrição do meio-Oeste e por aquele psicologismo classe-média que Frankenheimer buscou em William Inge e que enviava diretamente a ‘Clamor do Sexo’, um grande Kazan, também com o irmão de Shirley MacLaine (e Natalie Wood), que havia dado, um ano antes, o Oscar de roteirista para o dramaturgo. O caso de ‘Sob o Domínio do Mal’ é mais curioso. depois do assassinato de John Kennedy, Frank Sinatra retirou-o de circulação, mas eu consegui vê-lo ainda na estreira do lançamento, na própria Faculdade de Arquitetura, que então frequentava (em 1964). Por melhor que seja Meryl Streep no remake de Jonathan Demme, Angela Lansbury é fora de série em ‘The Manchurian Candidate’, a versão de 1962. O que era aquela mulher? O curioso é que estou escrevendo isso e me dando conta de que aquele ano foi muito especial para o cineasta, que realizou ‘O Homem de Alcatraz’ – e Burt Lancaster foi premiado em Veneza -, ‘O Anjo Violento’ e ‘Sob o Domínio do Mal’. Promissor, para um jovem que devia estar nos seus 30 anos, não? Outra curiosidade é que muitos dos meus filmes preferidos de Frankenheimer são aqueles que Jean Tulard considera frustrados (ou fracassos) em seu Dicionário de Cinema – ‘O Homem de Kiev’, ‘Os Paraqueduistas Estão Chegando’, ‘O Pecado de Um Xerife, com aquela trilha de Johnny Cash, e ‘Os Cavaleiros do Buzkashi’, sobre um esporte bárbaro, uma espécie de futebol com a carcaça de um carneiro, praticado por tribos primitivas do Afeganistão. O filme era interpretado por Omar Sharif e Jack Palance, a dupla de ‘Causa Perdida’, o Che de Richard Fleischer, e tinha uma atriz que eu achava muito bonita, Leigh Taylor-Young. Lwembro-me de que a fotografia, uma coisa assim preto e branco em cores, era de Claude Renoir, que captava o que imagino seja a secura do Afeganistão. Pode ser que esteja enganado, pois faz tempo que não (re)vejo ‘O Homem de Kiev’, mas se tivesse de escolher apenas um Frankenheimer seria esse. Minha lembrança é a de 40 anos atrás (praticamente), mas a adaptação do romance de Bernard Malamud tinha tudo a ver com o clima que a gente vivia no Brasil da época, durante a ditadura militar. Não admira que o filme de 1968 me tenha caído como um raio. Alan Bates faz o judeu injustamente preso e acusado durante progrom na Rússia czarista. Dirk Bogarde é o advogado aristocrático que o defende. Bogarde trabalhou com Joseph Losey e Luchino Visconti em grandes filmes, mas, quando pensdo nele, a primeira imagem que me vem é sempre a do Frankenheimer. A nobreza do personagem, sua intransigência ética casavam com o clima 68. A fase montanha abaixo do diretor é terrível. ‘A Ilha do Dr. Moreau’, a versão com Marlon Brando, é de cortar os pulsos. Como um catedrático se esquece como se faz cinema? Frankenheimer, no fim da carreira, havia se esquecido. Esqueço-me de um detalhe que não é irrelevante. O jovem Frankenheimer era um homem muito bonito, com pinta de galã. Nunca vi seu filme com Dominique Sanda, ‘Impossible Object’, História de Uma História de Amor, de 1971/72, mas me lembro de uma foto de bastidores em que ela parece totalmente entregue a ele. Sempre fui muito fantasioso. Achava que Frankenheimer, além de talentoso, devia, com o perdão da vulgaridade – é uma expressão que usamos muito aqui no jornal -, passar a régua em Hollywood.

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