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Luiz Carlos Merten

09 Dezembro 2007 | 17h06

Incrível – falei da montagem de André Garoli, A Longa Viagem de Volta para Casa’, para falar de John Ford. Saí do jornal, fui almoçar com minha filha e genro (no Filippa, que adoro) e, ao chegar em casa, o que estava passando na TV paga? ‘Marcha de Heróis’, de John Ford. Havia programado sair, mas cometi o erro de ver um pouquinho, disse para mim mesmo que só mais um pouquinho, desisti de sair e vi o filme até o fim. Ou seja – não errei coisa nenhuma. ‘Marcha de Heróis (The Horse Soldiers), de 1959, não ostenta a fama de ser um dos maiores westerns de John Ford. Na filmografia do mestre situa-se entre ‘Um Crime por Dia’ (Giddeon of the Scotland Yard) e ‘Audazes e Malditos (Sargeant Rutledge), o belo tributo fordiano aos ‘soldier buffalos’ – os negros que se integraram ao Exército norte-americano e se constituíram, com este nome, numa divisão específica da Cavalaria dos EUA. Fazia tempo que não via ‘Marcha de Heróis’, pelo qual confesso que tenho um carinho especial, porque amo Constance Towers e Ford e Samuel Fuller (o segundo com dois filmes: ‘Paixões Que Alucinam’ e ‘Beijo Amargo’) foram os cineastas que melhor souberam explorar o potencial dessa atriz maravilhosa. ‘Marcha de Heróis’ situa-se no quadro da Guerra Civil, que Ford raramente abordou de forma direta, embora seus antecedentes e conseqüências se façam presentes, agora sim, com freqüência, em seu cinema.O filme trata da oposção entre o médico William Holden e o oficial John Wayne. Na verdade, essa oposição metaforiza a outra, que é o verdadeiro tema do filme – o embate entre o saber (do médico) e o dever (do soldado). Só que a oposição não é assim tão definitiva, e o dever do médico é salvar vidas que ele sabe que serão ceifadas na guerra e o saber do militar está em tentar evitar que isso ocorra. O filme tem duas cenas memoráveis – um destacamento de crianças confederadas avança sobre as tropas da União e John Wayne ordena a retiada para evitar o confronto que, ceertamente, mataria muita delas. Uma é feitas prisioneira e o carcereiro pergunta o que fazer com o menino. Wayne responde – “Dê-lhe umas palmadas.” Mais tarde, o soldado que ordenou a retirada numa situação que lhe era favorável ordena que suas forças avancem numa situação suicida. Por que ele faz isso, arriscando-se e aos seus homens? Para mostrar que é o melhor? Não – a dor de John Wayne, que comanda o ataque ferido, é saber que está arriscando tudo (até, ou principalmente, o amor que descobriu na sulista Constance Towers), assim como a dor de John Ford é a de documentar, na tela, a realidade de um país que ele queria unitário (como seu mentor, Abraham Lincoln), mas se encontra dividido. John Ford morreu em 1973, aos 78 anos (nasceu em 1895). Seu último filme, ‘Sete Mulheres’, havia sido realizado quase uma década antes, em 1966. Ford chegou a testemunhar a Guerra do Vietnã, que dividiu os EUA (como a Guerra Civil), mas não a filmou (exceto alguns planos para ‘Os Boinas Verdes’, de John Wayne). É engraçado, mas todo mundo sabe (ou reconhece) que Ford tem grandes filmes – os meus preferidos são ‘Depois do Vendaval’, ‘Rastros de Ódio’ e ‘O Homem Que Matou o Facínora’ -, mas é incrível como os filmes ‘pequenos’ do diretor são ricos, complexos e muitas vezes nos surpreendem. Lembro-me de Peter Bogdanovich, autor de um grande livro (de análise e entrevista) mais um documentário sobre John Ford. Em ‘Texasville’, de 1990, ao retomar o universo de ‘A Última Sessão de Cinema’, onde homenageara Howard Hawks, utilizando uma cena de ‘Rio Vermelho’, Bogdanovich citou John Ford e mostrou uma cena de ‘Mogambo’, o filme de aventuras africanas do diretor, com Clark Gable, Ava Gardner e Grace Kelly. ‘Mogambo’ é quase sempre considerado um Ford menor (muito menor). Para Bogdanovich, o que ele só descobriu depois, é um dos maiores. Como já disse – ‘Marcha de Heróis’ é de 1959. Naquele ano, outro grande diretor de westerns também fez um filme que se tornou clássico com John Wayne – ‘Onde Começa o Inferno’ (Rio Bravo). Ford estava com 64 anos e Hawks, com 63. Esses velhinhos são, e serão sempre, inspirações para mim.