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Luiz Carlos Merten

22 Março 2012 | 11h19

Assisti, asssistimos ontem – Luiz Zanin Oricchio, uma garota da ‘Capricho’ e eu –, na cabine da Paris, a ‘Jogos Vorazes’, primeiro episódio da nova saga que a distribuidora espera que venha a ser o hit do ano. No final da sessão, fiquei conversando um pouco com Márcio Fraccaroli, sócio majoritário e CEO da empresa. Márcio anda rindo à toa. Mesmo tendo perdido em faturamento para ‘Rio’, a animação de Carlos Saldanha – por causa do preço do ingresso em 3-D –, a Paris contabilizou o maior público de 2011 nos cinemas brasileiros. Foram 7,5 milhões de espectadores com a primeira parte do episódio final da saga ‘Crepúsculo’, ‘Amanhecer’. Márcio já dá como favas contadas que a segunda parte, em novembro, vai repetir a dose. Simultaneamente, a Paris investe numa linha mais sofisticada, e acumula êxitos com ‘Meia-Noite em Paris’, ‘O Artista’, ‘A Dama de Ferro’, o próprio ‘Shame’, que teve um lançamento pequeno. Em junho – dia 1º –, já teremos o novo Woody Allen, ‘Roma’, que ele não foi bobo de levar a Cannes, para evitar a comparação com o que virou um fenômeno em sua carreira (o sucesso de ‘Midnight in Paris’). Márcio põe fé no sucesso de ‘Jogos Vorazes’, que chega para tentar preencher o vazio que os órfãos de ‘Crepúsculo’ e ‘Harry Potter’ devem estar sentindo, embora pareça improvável que o filme possa atingir estratosféricos 12 milhões de espectadores (a soma do público de ambos os filmes). De minha parte, e escaldado pelo fracasso de ‘John Carter – Entre Dois Mundos’, do qual gostei tanto – a Disney ameaça cancelar o 2, ‘Os Deuses de Marte’ –, quero dizer que achei ‘Jogos Vorazes’ bem interessante. O filme é bem feito – muito mais bem feito do que qualquer episódio de ‘Crepúsculo’ –, mas sua força vem de Jennifer Lawrence como a heroína Katniss Everdeen, que consegue ser ética e solidária neste mundo futuro em que jovens dos 12 distritos que compõem Panem são selecionados como ‘tributos’ num reality show que também é uma disputa mortal, da qual surgirá só um vencedor. O jogo mortal, a TV, tudo aproxima ‘Jogos Vorazes’ de ‘O Sobrevivente’, um velho êxito de Arnold Schwarzenegger, dirigido por Paul Michael Glaser (nos anos 1980), mas a proximidade é superficial, mesmo que ‘Jogos’ retome, em parte, a estética multicolorida do filme do co-criador da série ‘Miami Vice’. O problema de ‘O Sobrevivente’ era ser formatado para Schwarzenegger, já investido de sua persona como exterminador do futuro, enquanto a heroína, aqui, é outra coisa (e a atriz, além de bela, é ótima). Conversei muito com o Márcio sobre o que, afinal, diferencia a franquia da série e ele tem uma definição interessante. Na franquia, cada episódio é tratado de forma isolada, com diretores diferentes – mesmo que David Yates, por exemplo, tenha dirigido vários ‘Harry Potter’ –, porque o importante é sempre a ‘história’, não uma possível autoria. Mesmo assim, tenho de ressaltar que Gary Ross, que dirigiu o primeiro ‘JogosVorazes’, fez um bom trabalho e ele dirigiu ‘Seabiscuit’, com Tobey Maguire, sobre outra disputa, em que um cavalo e um jóquei, o primeiro com sua pata torta, o outro paralisado por temores, tinham de superar seus limites (como Katniss agora). O interessante é que o primeiro filme sinaliza para o que serão os outros dois – um triângulo amoroso, o segundo, e a luta contra o poder central, representado pelo ancião Donald Sutherland, o terceiro. Quero dizer que estou dentro.