Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘Jogo entre ladrões’

Cultura

Luiz Carlos Merten

17 Março 2009 | 12h45

Fui ver ontem à tarde ‘Pacto entre Ladrões’, de Mimi Leder, com Morgan Freeman e Antonio Banderas. Havia perdido as cabines, o filme estreou nem sei quando. Vi que os coleguinhas caíram matando, normal. Filme de Hollywood, produção comercial. Resolvi conferir. Achei bem legal e saí do cinema pensando com meus botões (deixa o ‘Benjamin Button’ em paz, Merten) – o que se passa com a crítica? Se você vai às origens do cinema de autor, nos anos 50, na revista ‘Cahiers du Cinéma’, vai ver que Truffaut & Cia. podiam ser furiosos contra um certo tipo de cinema de qualidade, mas eram generosos com os ‘pequenos’ mestres que tentavam impor suas marcas na produção de estúdio. Havia um elogio à criatividade, à invenção e a todos os clin-d’oeils com que os diretores ‘artesãos’ tentavam chamar a atenção, de trás das câmeras. Ó, eu estou aqui… Quarenta/cinquenta e tantos anos depois, isso não conta mais. Temos uma radical divisão entre cinema comercial e de autor e os críticos estão completamente blasés. Percebem todas as sutilezas de seus mestres e, às vezes, elas nem são tão sutis. São toupeiras em relação ao resto. Ninguém se preocupa mais com o meio de campo (que é enorme). ‘Força Policial’, que eu achei um thriller bem decente, sobre família e com uma atuação espetacular do ator que faz o irmão mais velho (nem me lembro o nome…), é considerado perda de tempo. Que gente mais ocupada! Pelo visto, só eu tenho tempo a perder. Vamos a ‘Pacto entre Ladrões’. O filme inscreve-se na vertente do assalto perfeito. Ela vem desde os anos 50. John Huston, Jules Dassin, Stanley Kubrick, todos deixaram sua marca – ‘O Segredo das Jóias’, ‘Rififi’, ‘O Grande Golpe’… Houve até a versão cômica de Mario Monicelli, ‘Rufufu’, que no Brasil se chamou ‘Osa Eternos Desconhecidos’. Banderas faz um ladrão ‘cinéfilo’, mas ele só vê os filmes que interessam ao exercício de sua ‘profissão’. Dassin é seu cineasta preferido, e ele comenta ‘Topkapi’ com Morgan Freeman. Faz gracinha – apresenta-se como Jules Dassin ao comissário Robert Forster, que responde, taco no taco, que gosta muito de seus filmes. A piada é mais sutil do que parece, mas isso você só vai perceber no fim. É um filme sobre amizade, traição, sobre duplicidade – as coisas que não são o que parecem. Todo o plano é para roubar dois ovos incrustrados de diamantes que pertenceram à czarina Alexandra, mas há uma surpresa no desfecho e ela vem acrescida de uma ‘explicação’ de Rade Serbedzija, o ator do sublime ‘Antes da Chuva’, de Milcho Manchevski, que a mim emocionou, mas fazer o quê? Sou assim mesmo. Não estou dizendo que seja uma obra-prima, mas que é inteligente e isso não representa pouco. Morgan Freeman e Banderas formam uma boa dupla. Radha Mitchell é fogo nas calientes cenas de sexo. Banderas me interessa particularmente. Permitam-me uma pequena digressão. Outro dia, meu colega Lauro Garcia Lisboa me mostrou as imagens mais terroríficas que vi nos últimos tempos. Não, não pertencem a nenhum filme de terror. São bem mais reais (e assustadoras). Lauro garimpou num site do Google as imagens de celebridades que fizeram cirurgias plásticas ou colocaram botox e a coisa não deu certo. Lembram-se daquele filme horroroso do John Frankenheimer, com Marlon Brando? ‘A Ilha do Dr. Moreau’? Os monstros do filme eram bem mais ‘bonitos’ do que muita gente que, em busca da eterna juventude, acabou consigo mesma. Embora não tenha virado um monstro, Melanie Griffith, a senhora Banderas, foi uma dessas cuja cirurgia não deram muito certo. E ela era tão maravilhosa em ‘Dublê de Corpo’, de Brian De Palma. Fim do intervalo. Banderas, ao contrário da mulher, está assumindo que o viço da juventude já foi. Cabelos brancos nas têmporas, rugas. Bye-bye, Almodóvar. Mas ele ficou mais interessante. Esse efeito do tempo ajuda a construir o personagem, transforma o durão num homem vulnerável (por efeito do amor). Enéas de Souza, o grande crítico de Porto Alegre, escreveu certa vez que o cinema começa e se dilata na epiderme dos atores. Mimi Leder sabe disso, e como! Seu outro thriller, ‘O Pacificador’, com George Clooney e Nicole Kidman, é um dos mais honestos ao explorar a paranóia anti-árabe, ainda no pré-11 de Setembro. Depois, ela fez ‘A Corrente do Bem’, com Kevin Spacey, um dos piores filmes que já vi e o Kevin devia ter sido obrigado pela academia a devolver seus dois Oscars. Se o filme já era o ó, transformando suas boas intenções num inferno, a interpretação desastrosa do ator piorava ainda mais as coisas. ‘Jogo entre Ladrões’ mostra que Mimi ainda tem gás. E o jogo não é só entre os ladrões. ‘The Code’, no original. O código e o jogo são também entre a diretora e o público, midiatizados pelo cinema. ‘Jogo entre Ladrões’ é sobre filmes, cinema. Bem interessante.

Encontrou algum erro? Entre em contato