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Luiz Carlos Merten

07 Agosto 2011 | 19h22

GRAMADO – Confesso que me irritou aquele cara da Lume desqualificando o cinema brasileiro atual durante o debate sobre a censura, ontem à tarde, mas tenho de fazer uma retificação. Ele estava na mesa não como distribuidor de ‘A Serbian Film’ – não é a Lume, mas outra distribuidora do Maranhão – e sim, por ter exibido a produção sem cortes no festival que a empresa promove (e que acaba de se realizar em São Luiz). Feita a retificação, quero dizer que acabo de assistir ao verdadeiro filme de horror da nossa época. Não sei nem com quem, ou que,. comparar. John Carpenter? Esse não dá nem para a saída? A série ‘Jogos Mortais’? É lixo. ‘Pânico’? Taí – esse pode ser interessante, Wes Craven. Gostei do episódio mais recente, sobre o qual não tive oportunidade de escrever no ‘Caderno 2’, preovavelmente porque não estava na cidade quando o filme estreou, ou coisa que o valha. Mas o filme de que falo é o documentário ‘Carne e Osso’, da dupla Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros, que já havia passado no É Tudo Verdade. O filme é sobre trabalhadores de frigoríficos, que sofrem mutilações e doenças várias por sua atividade repetitiva. A dupla de diretores ouve magistrados e conta as histórias de alguns desses trabalhadores. Cita dados acachapantes, masa não dá nome à empresas, o que Caio, numa conversa rápida no fim da sessão admitiu ter sido alvo de críticas. Essas empresas representam um significativo aporte de dinheiro, em termos de impostos, mas o que o documentário mostra é que o tal rombo da Previdência, do qual tanto se fala, decorre em boa parte, ou em parte, que seja, do número de funcionários que elas enviam para o INPS e outros tipos de programas assistenciais, justamente pela falta de segurança nas condições de trabalho. Ou seja, o imposto que pagam não cobre o prejuízo que causam. Qual é o raio de conivência que permite que isso ocorra? Quem me conhece sabe que compro uma briga para tentar provar a importância estética da cena do assassinato da ducha em ‘Psicose’, de Alfred Hitchcock. Aqueles 70 e poucos cortes para 45 segundos de filme tiveram tanto impacto sobre o audiovisual quanto a célebre cena da escadaria de Odessa no clássico ‘O Encouraçado Potemkin’, de Sergei M. Eisenstein, mas deixa pra lá. Caio e Carlos Juliano mostram – e as imagens são impressionantes – que um trabalhador do setor realiza 18 movimentos em 15 segundos para desossar uma coxa de galinha, e segurando uma faca afiada. Não satisfeitas, as empresas fdixam metas e cobram cada vez mais eficiência para aumentar a produtividade, o que termina por robotizar essas pessoas e, pior ainda, causa danos irreversíveis a músculos e nervos, para não falar de desgastes mentais que atingem os trabalhadores cerca de três vezes mais do que os de outros setores da economia. Fiquei estarrecido com ‘Carne e Osso’, que não é exatamente um programa agradável de se ver, mas é muito corajoso pelas questões que levanta. Remember Kubrick – o tratamento Ludovico consiste em mostrar imagens para Alex, que permanece de olhos bem abertos em ‘A Laranja Mecânica’. Não seria o caso de fazer o mesmo com ‘Carne e Osso’, mas abrindo os olhos de quem? Da sociedade como um todo? Tenho assistido a muitos filmes de denúncia como esse na programação da Galeria Olido, em São Paulo, até seguidos de debates. Estou só deixando a sugestão, mas, gente, ‘Carne e Osso’ é o verdadeiro filme punk.