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Luiz Carlos Merten

18 Agosto 2007 | 12h28

GRAMADO – Conversei com um ou dois jurados da competição brasileira e eles andam fugindo de mim como Diabo da cruz. Não comentam nada, mas já ouvi coisas do tipo ‘Quer trocar de lugar comigo?’ A questão é a seguinte – ontem, após a exibição de Jogo de Cena observei que seria muito melhor para todos se o filme de Eduardo Coutinho estivesse concorrendo ao Kikito. Trazer o filme para cá, fora de concurso, foi sinal de prestígio da curadoria de José Carlos Avellar e Sérgio Sanz, mas eu confesso que, pessoalmente, preferiria ver Coutinho ganhar os Kikitos de melhor filme e direção, ao invés do de Cristal, por sua carreira, por mais honroso que seja. Jogo de Cena discute um tema que tem estado presente na safra recente de filmes brasileiros – como em Santiago e Serras da Desordem, embaralham-se os limites entre documentário e ficção e o que se vê é um documentário ficcionalizado ou uma ficção documentária. Coutinho colocou um anúncio no jornal e selecionou mulheres para que narrassem suas histórias frente às câmeras e, depois, pediu a atrizes que reelaborassem os depoimentos originais e construíssem suas versões sobre essas mulheres. O resultado é excepcional. Uma conhecida diretora me admitiu que, como mulher, mãe, dona de casa, artista, cidadã nunca se sentiu tão intimamente devassada e bem representada como nesse filme dirigido por um homem. Grande Coutinho. O que é documentário? O que é ficção? Quem está dando seu depoimento? Quem está atuando? Tirei meu chapéu – meu boné, que é o que estou usando aqui – para Andréa Beltrão, que me pareceu uma coisa de louco. Adorei a participação de Fernanda Torres, que conta uma história que é dela, com certeza, e depois admite sua dificuldade para entrar na pele da outra, quando essa outra é tão real, está tão próxima. Confesso que, por uma questão muito pessoal, de gosto, senti falta de Fernanda Montenegro. fico aqui sonhando sobre o que a presença de nossa maior atriz poderia acrescentar a Jogo de Cena. À tarde, Coutinho me disse que estava ansioso, mais ansioso que de hábito, porque, afinal, seria a primeira exibição pública do filme. Mas ele acrescentou que tinha gostado muito de fazer Jogo de Cena. Eu gostei muito de ver, mas tive uma sensação curiosa, no fim. Fui jantar com o pessoal do Canal Brasil, como integrante do júri que selecionava os curtas do Prêmio Aquisição. Fui (ao Edelweiss), foi um jantar ótimo, divertido, mas eu terminei tomando vinho demais. A verdade é que estava exaurido. Jogo de Cena me consumiu. No fundo, gostaria de ter ficado quieto, num canto, sem falar com ninguém, ruminando aquela experiência visceral. Jesuíno disse que abandonou o blog. Gostaria que ele voltasse, depois de assistir a Jogo de Cena. Ele, que acha Deserto Feliz o melhor filme brasileiro da safra atual, vai manter sua defesa do filme de Paulo Caldas depois de assistir ao de Coutinho? Estou te provocando, Jesuíno, mas estou brincando. Podes ficar com Deserto Feliz, eu já estou com Jogo de Cena. Pode me cobrar, se eu mudar de opinião daqui a pouco. Desta vez, não existe a menor possibilidade de que isso ocorra. Os defeitos do filme, se um dia os descobrir, acho que vão acrescentar ainda mais humanidade àquilo que vi ontem à noite no Palácio dos Festivais de Gramado.