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Cultura » ‘Joga pedra na Gení!’

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Luiz Carlos Merten

02 Março 2012 | 11h10

Fui ver ontem o show de Chico Buarque, mas antes passei pelo MIS, Museu da Imagem e do Som, para a abertura do evento em homenagem a Leon Cakoff. Terminei convidado por Renata de Almeida a integrar a mesa, dando um depoimento rápido. Lá estavam André Sturm, Miguel Barbieri, Alcino Leite Neto, Ademar Oliveira, Heitor Dhalia (que acaba de concluir seu filme norte-americano) e Renata. Espero não ter dado vexame. Lembrei minha primeira mostra. Cheguei a São Paulo no final de 1988. Era o último dia da mostra e eu achei que conseguiria ver ‘Asas do Desejo’, de Wim Wenders. Ainda era na Sala Cinemateca, na Fradique Coutinho, estava a maior muvuca. Tive muitas vezes uma relação difícil com Leon, mas tiro o chapéu para aquele cara e o evento que criou. A mostra mudou a relação de mercado no Brasil, provou que havia público – há público – para o cinema de arte, autoral, e Leon foi certamente importante na resistência à ditadura, lutando contra a censura, para trazer ao Brasil filmes importantes que estavam no índex dos militares. Mas o assunto, ontem, eram os filmes de nossas vidas. Fui logo dizendo os meus. Os da minha são três, e todos grandes – ‘Rocco e Seus Irmãos’, claro, ‘Hiroshima, Meu Amor’ e ‘Rastros de Ódio’. Luchino Visconti, Alain Resnais e John Ford. Três filmes e autores bem diversos entre si, e isso é a minha cara, a ausência de dogmatismo, o gosto da diversidade. Aproveitando que André Sturm estava na mesa, lembrei quando ele, como distribuidor, relançou ‘Rocco’ no Belas Artes. Levei meio ‘Caderno 2’ para ver o filme. Na cena em que Simone volta para casa, depois de matar Nádia, a família está reunida comemorando a vitória de Rocco no boxe, ele confessa o crime, Alain Delon grita ‘No, Simone no!’, a mãe ergue as mãos para o céu, blasfemando contra Deus, tudo aquilo é over, excesso puro. Eu chorava copiosamente e meus acompanhantes, assustados com o exagero – era tanta tragédia –, rebentaram de rir. Eu chorava e gritava com eles no cinema. ‘Cambada de burros, vocês não sabem o que é arte!’ Ah, as lembranças… Dali corri para o show do Chico. Como experiência estética foi mediano. Valeu muito mais pela sociologia. Chico, com todo respeito, é o Wando da mulherada de classe média e intelectual. Elas não chegam a atirar calcinhas no palco – grande Wando –, mas muitas bem que gostariam. Quando Chico canta a pintinha da amada, sugere que está a fim (nas letras), elas gritam ‘Eu! Eu!’ Muito interessante. Uma senhora, cabelos grisalhos, encarnou uma cabrocha e, descontrolada, sambava como se fosse porta-estandarte na avenida. Vou escrever uma coisa que talvez me custe a amizade do Canivello. Chico canta 30 e tantas músicas – de algumas, dá só uma palhinha, como ‘Cálice’ (e o Crioulo estava lá). Cada um faria sua seleção dessas 30. Eu substituía umas dez que estão no show. Nem sabia que o Chico tinha tanta música ruim, umas rimas banais (‘onda vai, onda vem’), mas, em compensação, tive um choque. As duas horas de show se resumiram a uma música, mas que música! Nunca vi a ‘Gení’ cantada daquele jeito, e com aquele arranjo. Tenho, para mim, que as melhores canções de Chico são narrativas completas – ‘Pedro Pedreiro’, ‘Quem Te Viu Quem Te Vê’, ‘Olhos nos Olhos’, ‘A Banda’, ‘Teresinha’ (outro destaque do show). É curioso, porque o Chico dos livros não é, necessariamente –ou nem um pouco –, um contador de histórias, mas um investigador da linguagem. Ele conta muito mais histórias nas músicas. ‘Geni’ foi ontem uma revelação. A obra-prima de Chico? Talvez. A obra-prima do show? Não tenho a menor dúvida.