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Luiz Carlos Merten

17 Maio 2012 | 13h59

CANNES – De madrugada, decepcionado com o que havia sido a programação de abertura do 65.º festival, manifestei o desejo de que o segundo dia chegasse logo. Ele veio e foi, como esperava, melhor. Estou seis horas à frente de vocês, o que significa que já passam das 18 horas, aqui. Daqui a pouco terei de escolher entre a abertura da mostra Un Certain Regard e a da Quinzena. ‘Mystery’, de Lou Ye, em Um Certo Olhar, e ‘The We and I’, de Michel Gondry, na Quinzaine. O dia começou hoje com ‘De Rouille et d’Os’, de Jacques Audiard, o diretor de ‘Um Profeta’. Um bruto, interpretado pelo belga Matthias Schoenaerts, se envolve com a instrrutora de um show aquático que perdeu as duas pernas no ataque de uma orca. Há dez anos, Audiard diz que não poderia ter feito este filme porque não havia tecnologia para tornar tão real a amputaçãso das pernas de Marion Cotillard. O filme é sobre um homem que se reconcilia com a mulher, um pai que se reconcilia com o filho, um irmão com a irmã. No limite, um homem que se reconcilia consigo mesmo. Vocês vão me desculpar, mas chorei de soluçar. Um crítico! Na plateia do maior evento de cinema do mundo! Foda-se! Quando esse homem, enfim tocado, diz à mulher que a ama… O cinema pode ser uma coisa maravilhosa. Matthias é um sobrevivente. Começa o filme catando lixo, restos de alimento para alimentar o filho. Executa várias funções, inclusive a de instalador de filmagens ilegais das pessoas (pelos patrões) e de lutador, naquelas lutas de last man stands. Vale tudo. Cada porrada que o sangue parece que vai saltar da tela. Audiard filmas muito bem, e não apenas as cenas de lutas. Matthias é um brucutu, um vigor animal nas cenas de sexo. Não liga nem um pouco se Marion não tem as pernas. É tudo uma questão de estar OP, operacional, ou seja, disponível. Desejo não é problema. Se está livre, ele manmda ver. Não me lembro de outro filme como esse, com esse recorte ao mesnmo tempo social, existencial. “LDe Rouille et d’Os’ foi feito aqui mesmo, em Cannes, por causa do sol. O festival começou. Cheguei a me arrepender de não ter gostado de ‘Moonrise Kingdom’, porque fiz uma entrevista ótima com Wes Anderson. Adorei algumas coisas no filme – os sets, a sensação de que se trata de uma animação em live action. Ele me explicou como fez isso com o décor, os atores. Conversamos sobre música, a trilha de Alexcasndre Desplat, com direito a uma suíte final em que os instrumentos vão entrando separadamente. Faz eco com a cena do começo, em que um concerto de Purcell é reinventando, nos mesmos moldes, por Benjamin Britten. Esse olhar para as partes e a tentativa de integração no todo é o cerne da mise-en-scène der Wes Anderson. Ele gostou da metáfora. Entrtevistei-o na Praia do Carlton Hotel e corri para o sétimo andar do próprio hotel, onde já rolavam as entrevistas de ‘Madagascar 3’. Confesso quie fui no automático com Chris Rock e Ben Stiller, me envolvi mais com Martin Short e Jada Pinkett Smith, mas Jessica Chastain… Jessica quem? Quem é cinéfilo, sabe. Jessica esatá fechando aqui, como diz, o ano mais extraordinário de sua vida. Em maio passado, ela era uma desconhecida quando estourou, aqui em Cannes, com ‘A Árvore da Vida’, de Terrence Malick. Vieram depois a indicação para o Oscar e diversos filmes, incluindo ‘Madagascar 3’ e ‘Lawless’, de John Hillcoat, que participa da competição deste. Achei-a maraviolhosa, calorosa e não sei mais quantos adjetivos poderia arranjar. O jeito que elas fala de cinema, de diretores, dos filmes que ama. Qual a maior emoção deste ano tãso especial? Ela diz que foi ter levado a avó à festa do Oscar. Foi a avó que lhe deu força quando resolveu ser atriz, foi a avó quen lhe apresentou ‘O Mágico de Oz’ e, quando Judy Garland canta ‘Over the Rainbow’, a menina Jessica estava conquistada para a arte, o cinema. Tive uma bela tarde. Hoje, de voltas ao Grand Théâtre Lumière, o Palais – a sessão de ontem foi na segunda sala em importância, a Claude Debussy -, pensei comigo como sou privilegiado quando se elevaram os acordes do ‘Carnaval dos Animais’, que acompanha a vinheta do festival. A câmera sobe uma escadaria até o topo, onde se descortina a Palma de Ouro. Quem nunca viu, deve encontrar facilmente o vídeoclipe no YouTube. A emoção de aqui estar. Os filmes, as entrevistas. Um dia isso vai se acabar , mas, por enquanto, I’m in heaven.

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