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Luiz Carlos Merten

26 Novembro 2007 | 17h24

Numa cena de ‘Sedução da Carne’ (Senso), de Luchino Visconti, Lívia Serpieri envia uma carta ao amante austríaco, Franz Mahler. O perfeccionista Visconti não deixou por menos e fez com que Alida Valli, a atriz que interpreta o papel, redigisse a carta do próprio punho. Aos que o criticavam por seu detalhismo, Visconti respondia – para o espectador, podia não fazer diferença nenhuma, mas para ele e a atriz com certeza implicava num comprometimentop maior com as motivações da personagem. Me lembrei dessa história porque hoje de manhã, mexendo nos papéis acumulados na minha meda, na redação do ‘Estado’, encontrei o dossiê de imprensa de ‘O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford’, que não havia lido. Dei uma folheada e encontrei algumas histórias interessantes. Uma me atraiu em particular. O diretor neozelandês Andrew Dominik pode não ser Visconti, mas teve seu dia de Luchino. Ele não se satisfez em utilizar réplicas da Schofield 3, que era a arma usada pelo pistoleiro. Ele queria peças da época. Encontrou algumas em coleções particulares e elas foram restauradas pela Smith&Wesson. Não satisfeito, Dominik fez com que a arma carregada por Brad Pitt fosse gravada com o número de série verdadeiro da Schofield usada por Jesse. O que isso prova? Que Dominik é maluco? Que tentou ser o mais fiel possível à história? A questão é justamente – qual história? O pesquisador Ron Hansen, autor do livro em que o diretor se baseou, conta que, de todos os pistoleiros lendários do Velho Oeste, Jesse James foi aquele cuja imagem foi mais construída. Um certo John Newman Edwards, editor de um jornal de Kansas City, construiu a série de reportagens que transformou Jesse num trapaceiro charmoso ou num vingador que atentava contra os interesses que estariam, supostamente, empobrecendo as pessoas no Missouri, quando, na verdade, as ações de Jesse eram responsáveis por boa parte desse empobrecimento. A conseqüência foi que o bandido se transformou num herói de ação e o seu assassinato só podia ser creditado a um ato de covardia. O que Hansen fez foi recontar, com base em suas pesquisas, essa história de um ângulo diferente. Se não é mais verdadeiro, a interpretação histórica fica, de qualquer maneira, mais acurada. Jesse é um siderado cada vez mais perseguido por sua imagem. Robert Ford, anulado pela história oficial , vira uma projeção (ou um reflexo) dele. Jesse pode ser comparado às celebridades de hoje. Robert é o fã que só existe por meio da adoração do seu ídolo. Psicanaliticamente, ele só consegue adquirir uma identidade ao se desvencilhar do ídolo – ao matá-lo? –, mas ao fazr isso, em vez de receber o reconhecimento popular, já que Jesse, afinal, era um criminoso, ele colhe o ódio que, no limite, vai cavar sua sepultura. Tudo isso é muito complexo e fascinante, mas só funcionaria – como efetivamente funciona – graças à mise-en-scène em perfeita sintonia com o que o autor quer expressar. Essa história não poderia ser contada como aventura, nem mesmo como ação, no sentido convencional. Ela só funciona como reflexão, daí o tempo particular em que se desenrola, com tomadas lentas que captam toda a majestade do personagem e da paisagem do seu drama. Isso tem valido a ‘Jesse James’ todo tipo de definição – lento, solene. Seria, ou é, um filme de arte, não um western. Jesse no campo de trigo (ou aquilo é um milharal?) vira um personagem de raiz e é isso que ajuda a entender porque ele entrou para o imaginário dos norte-americanos. Confesso que não havia pensado nisso antes, mas sempre me incomodou ver como as pessoas comparam Dominik, ou o seu filme, a Terrence Malick. Acho que não tem nada a ver e só agora me dei conta do por quê. A dialética externa, o quadro histórico e social em que os personagens se inserem, somada à dialética interna dessas figuras que encaram o desafio do autoconhecimento, tudo isso me parece muito mais próximo à concepção que faz de Kurosawa o autor do paradoxo e do movimento. Vale lembrar que Kurosawa, no Oriente, era acusado de ser influenciado pela cultura ocidental, mas o paradoxo é que ele influenciou Hollywood e Cinecittà e seus épicos de samurais – seus filmes de sabre – viraram westerns e spaghetti westerns. Havia gostado de ‘Jesse James’, mas agora estou gostando mais ainda. E o Brad Pitt e o Casey Affleck… Difícil é escolher qual dos dois é o melhor.