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Luiz Carlos Merten

10 Agosto 2007 | 13h51

Admito que tenho a maior antipatia por essa lei que tira a publicidade dos prédios em São Paulo e não é por que acho que existam coisas mais importantes com que o prefeito devesse se preocupar. Mas essa coisa de controlar fachada, de proibir feirante de gritar me evoca o Jânio Quadros, cujo vazio o atual prefeito me parece querer ocupar. Deus me livre! Quero relatar uma coisa. Tomei um choque em Jerusalém. É uma das cidades mais belas que já vi e não estou falando apenas da Cidade Velha, com aquela Casbah e mais a mesquita de Aksa e o Muro das Lamentações. Adorei circular por ali, visitar a Igreja do Santo Sepulcro. É incrível como três espaços sagrados de religiões tão diferentes conseguem estar tão próximos, geograficamente. Confesso minha ignorância do Corão. Não sabia que, segundo a tradição islâmica, Maomé ascendeu ao sétimo céu partindo justamente dali de Aksa. São lugares cheios de significado místico e religioso, bem como Kneret, onde se localiza a igreja construída sobre a rocha em que, também segundo a tradição, Cristo multiplicou os pães para a multidão. Se, para um agnóstioco humanista como eu, Israel foi uma fonte permanente de descobertas, imagino a emoção dos religiosos, sejam cristãos, judeus ou islâmicos, pisando aquele solo sagrado para eles. Mas quero falar de Jerusalém e de São Paulo. Há uma lei, criada por um prefeito antigo de lá, segundo a qual todas as construções têm de usar o mesmo tipo de pedra calcárea. Como elas possuem uma pequena variedade cromática, do amarelo ocre ao rosado, a cidade possui uma unidade plástica muito grande. E é uma cidade muito ensolarada, fica tudo muito claro, brilhante. (Me disseram depois que essas pedras vêm dos territórios ocupados e que Israel, portanto, está se apossando de riquezas naturais dos palestinos. Repasso o que me disseram.) Achei aquilo lindo e comentei ao chegar no jornal. Meu editor, Dib Carneiro Neto, foi na veia – mas em São Paulo tu és contra a padronização! Sou, e há uma diferença em Jerusalém. O padrão é unitário, mas seja comércio, hotel ou museu, o sujeito pode colocar sua placa, que não obdece a nenhum padrão, mas é sempre de muito bom-gosto. Confesso que adoro luminosos. Imagina se alguém vai tirar os luminosos de Time Square ou de Shibuya, em Tóquio… Seria (é) impensável. Agora, aqui, um sujeito que era vice, ou seja, foi eleito num pacote onde o que contava era o prefeito, um cara que nunca apresentou nada disso que está fazendo como plataforma política, sai tomando decisões que afetam a vida de todo o mundo e é assim mesmo. Outro dia, antes de viajar, fui fazer uma entrevista. Já tinha ido na casa do entrevistado. Tinha como referência uma placa do Unibanco 30 Horas (olha eu fazendo propaganda para a família Moreira Salles.) Sem a placa me perdi. Demorei para me achar, para saber que aquele prédio apagado ali era um banco e que eu tinha de entrar na primeira rua depois. Eu, hein?