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Jerry Lewis, gênio do humor (e analista crítico da ‘América’)

Luiz Carlos Merten

20 Agosto 2017 | 17h51

GRAMADO – Estava no Palácio dos Festivais, no início da sessão em homenagem a Jean Tomas Bernardini, quando Marcos Santuario, um dos curadores da seleção do festival, mostrou no celular – morreu Jerry Lewis. Jerry Lewis! Há tempos que ele andava encrencado em termos de saúde, mas, de qualquer maneira, a morte nunca vem quando se espera. Jerry desaparece aos 91 anos. Foi um gênio do humor. Teve uma fase em parceria com Dean Martin. Faziam shows em casas noturnas, tiveram um programa de rádio e chegaram aos filmes, que obedeciam a um pressuposto básico. Passaram parte dos anos 1940 e 50 repetindo a fórmula. Martin, o gostoso, o sedutor, sempre tentava conquistar alguma garota e Jerry, o palhaço, empatava a vida dele. Cada um se achava o melhor. Terminaram por se odiar, separando-se. Dean Martin morreu em 1995, aos 78 anos. Teve participações antológicas em Deus Sabe Quanto Amei/Some Came Running, de Vincente Minnelli, e Onde Começa o Inferno/Rio Bravo, de Howard Hawks, e integrou o grupinho de amigos de Frank Sinatra. Martin Scorsese sempre quis contar sua história. Não sei se desistiu, mas esses projetos postergados de ‘Marty’, como Gangues de Nova York, nunca resultam nos melhores filmes. Jerry teve mais sucesso na carreira solo. Seu mestre foi Frank Tashlin, que chegou ao humor pela via do cartum, exercendo profunda influência sobre o discípulo. Há uma crueldade, um sadismo?, que anima a fisicalidade do humor de ambos. Em Qual É o Caminho para a Guerra?, como o judeu que se passa por um oficial nazista, sem saber que Kesselring conspira contra Hitler, Jerry pratica torturas brutais, cravando as medalhas na pele dos soldados, até arrancar pedaços. É de morrer de rir e, ao mesmo tempo, é insano, uma monstruosidade. O humor, já dizia Blake Edwards, é o horror filtrado pela beleza (ou pela elegância). Como ator e diretor, Jerry foi reconhecido como grande, especialmente na França, que foi onde começou seu culto. Um filme como O Professor Aloprado, a versão de 1963, é obra-prima absoluta. A psicanálise da América. O matriarcado que esmaga o macho norte-americano. Na explosão do seu laboratório, o professor Kelp fica sob uma porta, na qual monta sua assistente, Kathleen Freeman. Uma imagem, um símbolo. No feminismo, as mulheres queixam-se da dominação masculina – foi o tema no debate de hoje, aqui em Gramado, a partir do filme de Laís Bodanzky, Como Nossos Pais.Jerry sempre foi na contramão e, não apenas no Professor, mas também em O Terror das Mulheres, mostrou o tormento do homem que tem de ser o melhor de tudo para merecer as mulheres. O Professor inverte Robert Louis Stevenson, O Médico e o Monstro. Na visão de Jerry, o monstro é Buddy Love, o sedutor, o gostoso – e se pode pensar que ele estava, conscientemente, se vingando de Dean Martin. Foram muitos grandes filmes – Três Num Sofá, As Jóias da Família, Qual é O Caminho para a Guerra?, etc. Nessa sucessão de grandes filmes Jerry foi, de alguma forma, metalinguístico como Jean-Luc Godard. Em seus filmes, além de se desdobrar em inúmeras máscaras (ou personagens) e de praticar um humor tanto verbal quanto visual, mais que qualquer outro grande cômico ele sempre quis expor/destruir o décor, para que o espectador soubesse que estava no cinema e que o filme era, é, representação. Vinte e tantos anos antes de Federico Fellini revelar o mecanismo do navio de E la Nave Va, de 1983, Jerry já fizera o mesmo com o pensionato feminino de O Terror das Mulheres, de 1961. Mesmo sem filmar há muito tempo, ele nunca saiu de cena e seguia com os shows, mas as doenças terminaram por vencê-lo. Câncer de próstata, diabetes, uma rara fibrose pulmonar cujo tratamento o tornou irreconhecível, de tão gordo. Mesmo em condições precárias, passou dos 90 e obteve inúmeros prêmios, incluindo o Jean Hersholt Humanitarian Award da Academia. O Oscar, mesmo, nunca. No mundo todo, nós, que sempre amamos Jerry, somos legião. Leandro Hassun, que sempre o admirou, conseguiu que Jerry participasse – como mensageiro trapalhão, o que mais? – de Até Que a Sorte nos Separe 2, de 2013, quando foi filmar em Las Vegas. É bem provável que tenha sido seu último filme.