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Jeanne Moreau, Tony Richardson e uma certa história imortal

Luiz Carlos Merten

01 Agosto 2017 | 09h32

Nem Jeanne Moreau nem Sam Shepard foram capas na edição de hoje do Caderno 2. Tive de me desdobrar para tentar dar conta da importância de ambos – e dela! – no espaço disponível. Deliberadamente, deixei de citar dois filmes da Moreau, ambos bem discutidos, é verdade, mas é curioso como depois, no jantar, ao conversar com meu amigo Dib, foram dois filmes que me vieram com força. Duas adaptações. Mademoiselle/Chamas de Verão, baseado em Jean Genet, e O Marinheiro de Gibraltar, d’après Marguerite Duras. Jeanne já ganhara seu prêmio de interpretação em Cannes por outro texto de Duras – Moderato Cantabile, que virou filme – ruim, até onde lembro – de Peter Brook. Chamas de Verão possui uma das mais belas fotografias em preto e branco do cinema. David Watkin! Uma pequena cidade, um vilarejo, é atingido por incêndios e inundações. A população desconfia de Manu e seu bando de italianos – a paranoia, a desconfiança do imigrante já estavam em pauta em 1966. Quem está provocando estragos é a menos suspeita das personagens em cena. A respeitável professora. Mademoiselle. Na intimidade, é uma cadela no cio, louca de desejo por Manu. Jeanne Moreau e Ettore Manni, um ator italiano hoje esquecido. Quando vem a esperada noite de sexo, se você espera Lady Chatterley, bye-bye. A coisa estás mais para bestialidade, bem ao estilo Genet. Nos anos 1960, raros filmes de Tony Richardson mereciam o favor da crítica. Um Gosto de Mel, As Aventuras de Tom Jones, O Ente Querido, o melhor de todos. Chamas de Verão foi particularmente execrado – mas aquele PB está gravado no meu inconsciente. Na sequência, veio O Marinheiro. Le Marin de Gibraltar. Jeanne, dona de um barco, busca o marinheiro, seu grande amor. Duras, Hiroshima – ‘Déforme moi, tu me tues, tu me fais du bien.’ As fêmeas de Duras e seus machos que preenchem a ausência em seu corpos. Agora a fotografia é de Raoul Coutard e do elenco participam Vanessa Redgrave, na época casada com o diretor, Ian Bannen, Orson Welles. O ano, também 1966. Naquela época, eu, pessoalmente, andava inebriado pelo mar. Lord Jim, o livro de Joseph Conrad e o filme de Richard Brooks. O Rastro da Bruxa Vermelha, sublime Edward Ludwig. E O Gavião do Mar, glorioso Errol Flynn. Talvez O Marinheiro não tivesse o mistério que buscava, mas gosto de imaginar que foi ali, no set de Richardson, que Welles e Jeanne selaram o compromisso de adaptar Isak Dinesen, Uma História Imortal, o que fizeram lindamente. Um velho rico, em Macau, paga para reconstituir a história do título. Um marinheiro passa uma noite de amor inesquecível. Na madrugada, o velho morre, mas os amantes da ficção… Uma História Imortal foi feito para TV. Dura apenas 58 minutos. Existe uma versão mais curta, de 52 ou 54 minutos. Doris e eu vimos esse filme, até hoje não sei qual, numa viagem pela América Latina. Minha vida de cinéfilo é cheia de lembranças de Jeanne Moreau.