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Luiz Carlos Merten

24 Janeiro 2010 | 09h19

Mauro Brider nos deu a notícia que muito me entristeceu – Jean Simmons morreu ontem, de cÂncer no pulmão, aos 80 anos, em Los Angeles. Que coisa! Nesta última viagem a LA, fiquei no Four Seasons, em Beverly Hills. Ali perto, na avenida La Cienaga, tem um ‘mall’ com cinemas. Na ida e na volta, caminhando – LA parece cidade fantasma, não se vê ninguém na rua, só carros, e muitas limusines -, passei pelo Cedars Sinai e pensei comigo. Quanta gente querida, quantos grandes artistas morreram neste hospital. Fiz até uma pequena viagem mental, pensando nos ‘meus’ velhinhos. Lembrei-me de Jean Simmons e agora ela se fui. Inveja branca pode, como disse a Cecília comentando um post, e eu sempre tive inveja de Rubens Ewald Filho, que, entre ‘trocentas’ entrevistas, fez duas que seriam verdadeiros sonhos para mim – copm o diretor George Sidney, que ele encontrou já velhinho, e com Jean Simmons, que achou classuda e disse que, ao falar de Richard Brooks – de quem se havia divorciado no fim dos anos 1970; ele morreu em 1992 -, ela ainda se emocionava. Jean Simmons era Jean Marilyn, inglesa, de Londres. Começou cedo, acho que descoberta por Val Guest, e participou de alguns filmes cults – foi Estella em ‘Grandes Esperanças’, de David Lean; a Ofélia de Laurence Olivier (‘Hamlet’); e entre os dois teve um papel importante em ‘Narciso Negro’, da dupla Powell/Pressburger, como a nativa intoxicada pelo perfume inebriante que desperta o desejo das freiras, naquele monastério do Himalaia que antes abrigava um harém. Não sei exatamente quando Jean foi para os EUA, acho que inicialmente acompanhando o então marido, Stewart Granger, que foi astro na Metro. Em 1952, Otto Preminger lhe deu um papel emblemático junto a Robert Mitchum em ‘Alma em Pânico’ (Angel Face), um clássico noir da mesma envergadura dramática de ‘Laura’. Jean co-estrelou com Richard Burton o primeiro cinemascope (‘O Manto Sagrado’, de Henry Koster), cantou com Marlon Brando em ‘Elas e Eles’, de Joseph L. Mankiewicz, e fez aquele western de William Wyler que não me canso de (re)ver, sempre que passa na TV paga, e ainda bem que passa sempre, ‘Da Terra Nascem os Homens’. E aí ela copnheceu e se casou com Richard Brooks, que lhe ofertou dois belíssimos papeis – como a missionária que dividia seu apostolado com o charlatão Burt Lancaster de ‘Entre Deus e o Pecado’, que valeu o Oscar ao ator, e a dona de casa amargurada de ‘Tempo para Amar, Tempo para Esquecer’ (Happy Ending). É um dos mais belos filmes sobre o casamento e sobre a relação homem/mulher. Jean faz uma personagem que acredita na visão hollywoodiana e ela fica vendo e revendo na TV aqueles filmes que terminam com um ‘THe End’ feliz. Mas a vida não é assim e o casamento naufraga. No final, o marido, John Forsythe, vai atrás dela e Jean pergunta se ele seria capaz de dizer que ainda sente o ardor do tempo em que eram jovens e experimentavam a urgência do amor. Sua personagem é uma romântica que não se contenta com pouco. Ela busca o absoluto que é difícil, senão impossível encontrar no outro. A chave do filme é a cena em que Lloyd Bridges, o pai de Jeff, explica porque as pessoas se casam, mesmo sabendo que um percentual muito grande dessas uniões vai terminar em seguida. O casamento é um ato comercial, faz a economia andar. Quem casa, precisa de casa, cama, colchão, fogão, refrigerador etc, e quando vêm os filhos as roda viva faz novas demandas. E sobre tudo isso é preciso colocar as exectativas das pessoas, as suas necessidades de afeto e de sexo. Sempre fui louco por ‘Happy Ending’, mas faz tempo que não revejo o filme. Continuará tão bom? Quero crer que sim. Não estou esquecendo, não. Em 1960, Jean Simmons fez ‘Spartacus’, de Stanley Kubrick, ao lado de Kirk Douglas. SUa personagem, Varinia, era um objeto destinado a servir os gladiadores da escola de Batiatus (Peter Ustinov). Mas Kirk Douglas se apaixonava por ela e, como Spartacus, liderava a revolta dos escravos contra o poder de Roma. A cena em que ela está grávida e ele brinca, tocando a barriga da amada e sonhando com m mundo de liberdade para seu filho é de uma beleza que corta o fôlego. As falas foram escritas por Dalton Trumbo, um homem de esquerda, célebre vítima do macarthismo, que readquiria ali – e em ‘Exodus’, de Preminger – sua identidade, depois de anos sendo obrigado a escrever sob pseudônimo, por estar na lista negra. Poderia ficar horas falando de Jean Simmons e do meu carinho por ela. O cinema faz dessas pessoas distantes seres muito próximos da gente. Choro a perda de Jean como a de um ente (muito) querido.