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Cultura » Jean Renoir, le Patron (2)

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Luiz Carlos Merten

11 Junho 2008 | 16h15

Nunca vi – acreditam? – ‘La Partie de Campagne’, considerado o mais belo (visualmente) filme de Jean Renoir, um estudo da cor e da luz digno do impressionismo de Auguste Renoir, seu pai. Gosto de vários filmes dele – como não? –, mas hesitaria antes de colocá-lo no meu panteão particular. Gosto de ‘Toni’, ‘A Grande Ilusão’, ‘A Regra do Jogo’, ‘O Rio Sagrado’, ‘A Carroça de Ouro’, ‘French Can Can’ e ‘As Estranhas Coisas de Paris’. Ou seja – quase tudo, mas nenhum desses filmes me arrebata, entendem o que quero dizer? Com exceção de ‘La Grande Illusion’, o mais próximo da perfeição, os demais filmes me parecem desequilibrados, no mau sentido, porque imagino que os tietes de Renoir gostam dele justamente por isso. Se a vida não é ‘perfeita’, por que exigir perfeição dos filmes? Quem sabe justamente porque a vida não é um filme, quem sabe por isso? Tenho revisto com maior ou menor prazer os filmes de Renoir ultimamente lançados em DVD no País. Gostaria, muito particularmente, de rever ‘O Testamento do Dr. Cordelier’, a versão de Renoir para ‘O Médico e o Monstro’, com Jean-Louis Barrault, em 1959, que devo ter visto por volta de 1960 e achei de uma bizarrice sem fim. Volto ao volume da coleção ‘Cahiers’/’Le Monde’ porque encontrei uma história interessante que quero relatar. Renoir queria ser ceramista ou inventor, mas se casou com Catherine Hessling, a última modelo de seu pai, e – apaixonado como era pela mulher – virou cineasta para transformá-la em estrela de cinema nos anos 20. É bem o tipo de história que os jovens da nouvelle vague apreciavam. Essa mistura de arte e vida é que também os seduzia em Roberto Rossellini, considerado o outro mestre de Godard, Truffaut & Cia. A Madame Bovary de Renoir situa-se entre obras mais famosas (e importantes) do diretor – ‘Boudu Salvo das Águas’ e ‘Le Crime de M. Lange’ – e a verdade é que sua apreciação se ressente disso. Como a sua ‘Naná’, a Madame Bovary de Jean Renoir é marcada pela influência que, sobre ele, exerceu Erich Von Stroheim (a quem dirigiria mais tarde em ‘A Grande Ilusão’). Pelos idos de 1970, até como reação à nouvelle vague, houve uma tentativa de colocar Renoir em questão na França. Não vingou. Pode-se considerar sua obra desigual, pode ser que ele tenha sido supervalorizado, mas parece impossível desmontar Renoir da posição que ocupa na história do cinema francês (e mundial). Gostaria muito que vocês lessem o livro a que me referi. Como iniciação ao autor, seria de muita valia. Imagino que uma coleção dessas seria de muita utilidade, se saísse por aqui. Mas talvez me engane. Aquela de grandes filmes, da Rocco, parou abruptamente. Não estava vendendo? Por falta de grandes filmes é que não precisaria ter parado.