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Luiz Carlos Merten

04 Junho 2007 | 12h44

Encontrei-me ontem com Jean-Claude Bernardet no Centro Cultural São Paulo. Nem ele nem eu estávamos lá para ver filmes. Fomos ver ambos a montagem de Crepúsculo, feita por Rubens Rusche com três peças do Beckett. Eu fui ver; Jean-Claude, entusiasmado, foi rever. Achei-o ótimo, mas ele me disse que era só aparência. Não anda muito bem de saúde e eu páro por aqui. Jean-Claude vai ser homenageado na próxima semana pela Sala Cinemateca, que anuncia uma ampla programação pela passagem de seus 70 anos. Simultaneamente, está saindo a reedição, 40 anos depois, de Brasil em Tempo de Cinema, o clássico de Jean-Claude no qual ele analisa, no calor da hora, o advento do Cinema Novo. Vou ter de fazer uma confissão. Afinal, é meu blog. Nunca li Brasil em Tempo de Cinema nem nenhum dos livros do Jean-Claude. Li sua ficção, Aquele Rapaz. Em compensação, ele foi muito importante nos meus verdes anos, em Porto Alegre. Já contei que meu irmão trabalhava na Varig, nos áureos tempos. Trabalhava de madrugada, como controlador interno de vôo da empresa. De manhã, quando chegava em casa para o café, ele trazia os jornais de Rio e São Paulo, e também de Nova York, que faziam minha delícia. Devorava, mais que as críticas, as reportagens e aqueles anúncios. Os próprios americanos não eram tão xiitas, naquela época. O que havia de anúncios de filmes estrangeiros – Satyajit Ray, Ingmar Bergman, Akira Kurosawa – não estava no gibi. Morria de vontade de ver a trilogia de Apu, que os críticos do The New York Times veneravam, principalmente o decano deles, Brosley Crawther. Só consegui ver a trilofgia completa, recentemente. Não me decepcionou. Entre os jornais que o Ildo (nome do meu irmão) me levava, estava a Última Hora, daqui de São Paulo. Bernardet era o crítico. Eu adorava porque ele era muito rigoroso na cotação. O filme tinha de ser muito bom para ter duas estrelas. Três ou quatro, então… E Bernardet subdividia certos textos, de filmes que considerava mais importantes. Me lembro que ele publicou várias críticas sobre O Bandidio Giuliano, de Francesco Rosi. Foi algo que me calou fundo porque, em Porto Alegre, no meio de todos aqueles críticos que preferiam o cinema americano e francês (Jefferson Barros, Enéas de Souza), eu tinha ficado chapado pelo filme do Rosi. Uma das minhas grandes emoções no cinema é a cena em que a mãe de Salvatore Giuliano irrompe na sala, cercada de carpideiras, e diante do corpo baleado do filho berra, feito animal – Turiddu! Turiddu! Até hoje não sei – Alessandro Giannini, venha em meu socorro – se aquilo é a corruptela siciliana de alguma expressão afetiva ou se era um apelido familiar. Anos mais tarde, O Bandido Giuyliano foi uma referência no roteiro que Bernardet escreveu para O Caso dos Irmãos Naves, de Luiz Sérgio Person, Bernardet, posso dizer, foi dos raros críticos que ajudou a fazer minha cabeça, naquelas críticas diárias. Cheguei ontem em casa, após o teatro – Bernardet me disse que a montagem era extraordinária; não exagerou –, e fui folhear o livro Brasil em Tempo de Cinema. Não li nenhum texto dele, mas li a apresentação de Otto Maria Carpeaux, o mestre dos mestres, cuja História da Literatura Ocidental é um monumento, não apenas de crítica, mas de literatura, pois ele era gênio escrevendo. Lamento não estar aqui, agora, com o livro. Há um trecho da apresentação de Carpeaux em que ele critica os distribuidores e exibidores que estão deixando de importar (e exibir) grandes filmes europeus, de certo por achá-los muito sofisticados para a imaturidade que atribuem ao público brasileiro. Carpeaux já intuía que a produção industrial de Hollywood iria se tornar dominante. O que ele escreve, em 1966/67, está mais atual que nunca. Não sei, exatamente, que fecho dar a este post. Dizer que o Bernardet merece a homenagem da Cinemateca me parece banal. Acho melhor fazer, para mim mesmo, uma promessa. Finalmente, vou ler Brasil em Tempo de Cinema. Mas fecho com uma observação. É muito raro ver crítico de cinema assistindo a peças. A recíproca até que é verdadeira. Já vi Mariangela Alves de Lima, que faz a crítica de teatro do Caderno 2, na fila do Arteplex para assistir a O Pacto dos Lobos! Meus colegas sem paciência para teatro perdem tanta coisa boa! Espero que não percam Crepúsculo.

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