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Luiz Carlos Merten

11 Janeiro 2009 | 12h57

Serge Gainsbourg foi um personagem ‘étonnant’, como dizem os franceses. Ator, cantor, compositor, diretor, ele deixou uma marca em tudo o que fez. Como compositor, criou fama de ‘beat’ e, além das músicas que compôs para ele mesmo, foi o letrista preferido das atrizes/cantoras. Françoise Hardy, Brigitte Bardot, Anna Karina, Juliette Gréco, Mireille Darc, Jeanne Moreau e, claro, sua mulher – com quem teve a filha Charlotte Gainsbourg -, Jane Birkin. Todas cantaram suas músicas. Mal comparando, porque os estilos são muito diferentes, Serge teria sido o Chico francês, no sentido de que suas letras também dão voz às inquietações das mulheres. E ele foi um ator muito apreciável, criando um tipo de dândi nonchalant e irônico. Começou em pequenos papéis de ‘Quer Dançar Comigo?’ e ‘Strip-Tease’ (de Jacques Poitrenaud, de 1962) e ganhou o primeiro plano, estrelando ‘Os Caminhos de Katmandu’ e ‘Cannabis’, que tinham a cara dele – uma peregrinação de hippies ao antigo Nepal, uma defesa da maconha. Em 1975/76. o próprio Serge Gainsbourg resolveu dirigir e fez ‘Paixão Selvagem’, que – descobri ontem – é o cartaz da Sessão Cineclube HSBC desta semana. No original, o filme chama-se ‘Je t’Aime, Moi non Plus’, como a canção (de Serge) que ele e a mulher cantavam, sussurrando e gemendo como se estivessem gozando, em vez de cantar. Vocês podem imaginar o escândalo que isso representou na época, no Brasil da ditadura, na sequência de outras polêmicas proporcionadas por ‘A Laranja Mecânica’, ‘Último Tango em Paris’ e ‘O Porteiro da Noite’. Fiquei na maior fissura para rever ‘Paixão Selvagem’. Talvez o faça hoje. Não tenho uma lembrança muito boa do filme. É algo vago, talvez me engane, mas é como se Serge Gainsbourg, intencionalmente, tivesse aplicado um visual ‘publicitário’, à ‘Um Homem, Uma Mulher’, a uma história que é muito mais barra-pesada. Ele pegou Joe Dalessandro, um ícone da contracultura, dos filmes de Paul Morrissey, e teceu a história desse caminhoneiro homossexual que se envolve com garçonete andrógina (Jane Birkin), a quem confundiu com um garoto provocador. Existe um triângulo, porque Jane tem um namorado possessivo, não me lembro bem. Um filme com o título da música não poderia prescindir do sexo gemido e a transa acho que é anal, porque Joe, afinal, pensa que Jane é ‘ele’. Como será (re)ver ‘Paixão Selvagem’, num mundo aparentemente muito mais livre e, no entanto, tão mais careta? Só para encerrar o post sobre Serge Gainsbourg, ele fez na Itália um ‘péplum’, um daqueles épicos mitológicos, de Nunzio Malassomma. Chamava-se ‘A Revolta dos Escravos’ e fornecia um divertido exemplo do estilo Serge Gainsbourg de ser e atuar. Ele fazia o procurador romano que ensaiava em si mesmo as torturas aplicadas aos revoltados do título e concluía – ‘São suportáveis’. E mandava torturar mais.