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Luiz Carlos Merten

03 Março 2007 | 19h24

São agora dois os filmes de John Cassavetes em cartaz e eu ainda não falei de nenhum. Primeiro, reestreou Uma Mulher sob Influência e, agora (ontem), Faces, ambos interpretados pela mulher do diretor, Gena Rowlands, e mais aquele elenco de amigos que ajudaram a compor o universo autoral de um dos mais interessantes artistas de toda a história do cinema americano. Uma Mulher sob Influência é dos anos 70 (73 ou 74, se não me engano). Faces é de 1968. Cassavetes já vinha fazendo filmes como ator, em Hollywood, desde o fim dos anos 50. No começo dos 60, sob a influência da nouvelle vague e do cinema direto, desenvolveu técnicas de improvisação que transformou na base de uma estética senão exatamente revolucionária, de qualqwuer maneira muito forte e fora dos padrões das produções de estúdios. Seu primeiro longa, Shadows, é considerado um marco da produção independente. Cooptado por Hollywood, Cassavetes foi fazer Too Late Blues e A Child Is Waiting (Minha ESperança É Você), no cinemão. O segundo foi particuloarmente traumatizante para ele, porque o produitor Stanley Kramer remontou o masterial do jeito que quis. Cassavetes nunca masis dirigiu em Hollywood – bem, Glória não deixa de ser um filme hollywoodiano -, mas lá ele se cercou de garantias para ter o direito de montagem. Após o trauma de Minha Esperança…, sobre crianças asutistas, JC – ele próprio dizia que, por suas iniciais, era o diretor mais apto a fazer um filme sobre Jesus Cristo -, ficou alguns anos só interpretando. Interpretou filmes importantes (Os Doze Condenados, de Robert Aldrich; O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski), juntando dionheiro para fazer Faces. Ele ficou mais de um ano montando o filme artesanalmente, em casa. Faces virou marco na carreira de JC porque mostrou, para ele próprio, que o cinema que queria fazer passava longe de Hollywood. Por mais diferentes que sejam os dois filmes em cartaz, eles desenvolvem o tema dominante da obra do diretor. Cassavetes fez muitos filmes sobre família, sobre casais. Falou sobre a família de sangue, mas também sobre aquela que se forma na comunidade, ou com amigos, e cujos laços não são menos intensos. Em relação ao casamento, Cassavetes tinha uma idéia obsessiva – ao falar de homens e mulheres (mal)casados, quase sempre, ele parecia querer provar que a frustração é o modo de vida dos casais americanos, fato tanto mais surpreendente porque seu casamento com Gena Rowlands não foi só estável artisticamente, mas também na cama, talvez porque ela o aceitasse do jeito que era (boêmio – morreu de cirrose ou coisa que o valha). Quero voltar a esses dois filmes, mas gostaria que o vissem ou, se já os viram, que comentassem sobre eles. Vou deixar o espaço para vocês e depois explico a ponte que faço entre o perfeccionista Visconti e o improvisador Cassavetes. Prestem atenção nas montagem dos filmes dele, na maneira como dirige a câmera para o corpo dos atores. Há um excesso do corpo no cinema de JC. Os personagens se movem, gesticulam, falam, têm reações nervosas e/ou histéricas mais do que nos filmes de qualquer outro diretor. A câmera participa do movimento. É muito interessante. Vejam, comentem e a gente volta ao assunto.

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