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Luiz Carlos Merten

14 Julho 2007 | 10h50

Régis pede que eu fale do cinema japonês, menos de Kobayashi. Por que, criatura? Será que falo demais dele no blog? Dele, não – nele. É por uma boa causa. Kobayashi fez para mim a obra-prima do cinema japonês, Rebelião, pegando os dois atores do Kurosawa, Toshiro Mifune e Tatsuya Nakadai, e transformando a aventura de Yojimbo e Sanjuro em tragédia pura. Mas o Régis pede que eu fale sobre Mizoguchi, Ozu, Naruse. Mizoguchi é uma lenda do cinema japonês. Na ativa desde o cinema silencioso, ele adaptou Maurice Leblanc, mas nunca pude ver o seu Arsène Lupin, que dizem, o que duvido, ser melhor que o de Jacques Becker, nos anos 50. Mizoguchi teve uma trajetória irregular e durante a guerra foi conselheiro cinematográfico do governo militar, o que lhe valeu não poucas críticas. Mas a fase final consolidou seu prestígio, com clássicos como A Vida de O Haru, Contos da Lua Vaga, O Intendente Sancho, Os Amantes Cruficicados, o próprio Rua da Vergonha. Mizoguchi foi o grande cineasta da mulher no Japão, fosse ela prostituta ou imperatriz. E ele tinha aquele estilo, como direi, plácido, em que nada parece supérfluo nem fora de lugar. Godard, o grande revolucionário dos anos 60, amava, acima de tudo, o classicismo de Mizoguchi porque via nele não um acadêmico, mas um cineasdta que, com freqüência, se voltava para o passado paras refletir sobre a falta de raízes e as transformações que a sociedade japonesa sofria nos anos 50, no período posterior à derrota na 2ª Guerra. Ozu? Meu Deus, o que dizer de Ozu? Durante muyito tempo ele foi considerado japonês demais para ser exportado para o Ocidente, mas quando foi ‘descoberto’ o mito não parou mais de crescer. Há um culto a Ozu. O oficionante é Wim Wenders. Ozu ficou famoso por sua câmera baixa, filmando do ângulo de um observador sentado na esteira de tatame. Num estilo lento, nada espetacular (mas não destituído de pathos nem de humor), ele filmou o cotidiano de pais e filhos, maridos e esposas, para dar o mais completo retrato da transformação da família japonesa tradicional. Pai e Filha, Viagem a Tóquio, Bom-Dia, Dia de Outono, Fim de Verão, A Rotina Tem seu Encanto. É difícil escolher ‘um’ Ozu. Paul Schrader analisou seu cinema e o comparou a Bresson e a Dreyer. Foram os três autores ‘transcendentes’ do cinema. Ozu detestava os enredos muito elaborados, detestava o barulho. Dizia que, para o filme ser bom, tinha de renunciar a todo excesso – de drama, de ação. É um paradoxo, para mim, pelo menos – como posso amar Ozu, e eu amo, e ao mesmo tempo ser tão tocado pela radical experiência audiovisual de Baz Luhrmann em Moulin rouge? Um é a negação do outro, mas eui sempre me pergunto – serão mesmo? Sempre me impressionou o niilismo pessoal de Ozu, que nem sempre (ou não está) em seus filmes. O cara morreu no dia em que fazia 60 anos. Pediu que colocassem na sua lápide o ideograma japonês correspondente a nada. Este desejo de anulação, vindo de quem construiu uma obra tão imorredoura, me deixa louco. Choro só de pensar. Acho Kobayashi um gênio, Rebelião é meu filme japonês preferido, mas como autor eu tenho esta queda por Ozu e seu ator, Chisu Ryu, sempre tão discreto. Ouso cometer uma indiscrição. Embora seja tão diferente de mim, acho que Chisu Ryu era o modelo de pai compassivo que eu gostaria de ser.