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Luiz Carlos Merten

20 Fevereiro 2008 | 14h08

Meu colega Luiz Zanin Oricchio assina a capa da edição de hoje do Caderno 2, sobre o ciclo do cinema do Japão que inicia, no Centro Cultural Banco do Brasil, as comemorações do centenário da emigração japonesa. Cheguei a São Paulo muito tardiamente, numa época em que não existiam mais os famosos cinemas do bairro da Liberdade. Mas havia, em Porto Alegre, salas como o Ópera, o Baltimore e o Cacique – no tradicional festival da Toho, na semana do carnaval – que atualizavam a gente pelo menos com um pouco da produção japonesa. Gosto muito da trindade Ozu/Mizoguchi/Kurosawa, mas meu diretor japonês favorito é Masaki Kobayashi, não apenas por sua trilogia ‘Guerra e Humanidade’, mas principalmente por seus filmes de samurais, ‘Hara-Kiri’ e ‘Rebelião’, que, mesmo me arriscando a receber pedradas, considero o maior filme japonês de todos os tempos, ou, pelo menos, o meu ‘Rocco’ japonês. Consegui comprar todos esses filmes em DVD. Me faltava o ‘Rebelião’, que saiu nos EUA, pela Cryterion, como ‘Samurai Rebellion’. Que filme! Toshiro Mifune faz o samurai que quer denunciar ao poder central os abusos de um suserano. Tatasuya Nakadai, o ator-fetiche de Kobayashi, é contratado para impedí-lo. Mas Nakadai sabe que Mifune tem razão e vive um conflito. Ele não pode deixar de combatê-lo, mas se o matar ele estará indo contra valores de honra e dignidade que sempre nortearam sua vida. O duelo de sabre dos dois – e o gesto final do Nakadai – fazem parte das minhas experiências inesquecíveis no cinema. Nesta primeira semana, o ciclo do CCBB mostra Ozu, Kurosawa, Mizoguchi. Não sou o maior fã de ‘A Luta Solitária’ (Kurosawa), amo ‘Era Uma Vez em Tóquio’ (Ozu) e gosto bastante de ‘A Música de Gion’ (Mizoguchi, embora deste último prefira ‘Cinco Mulheres ao Redor de Utamaro’, que vi na segunda-feira (é impressionante, mas sempre tem um Mizoguchi em cartaz nos cinemas de arte de Paris). Outros filmes importantes desta primeira semana no ciclo do CCBB – ‘O Túmulo do Sol’, do Nagisa Oshima, considerado um marco da nouvelle vague no Japão; ‘A Mulher de Areia’, do Teshigahara – que Andrucha Waddington não viu, mas fez um pouco a versão brasileira, ‘Casa de Areia’ – e ‘A Ilha Nua’, do Kaneto Shindo. Nenhum Kobayashi? Nem Sugawa? Não acredito. Ambos devem estar na seqüência da programação, até porque a capa do Caderno traz hoje uma foto de ‘As Quatro Faces do Medo’ (Kwaidan), o exercício fantástico, com magnifico uso da cor, de Kobayashi. Quero aproveitar para dizer duas coisas. Achei muito bonito o ‘Mãe’, de Yoji Yamada, que passou em Berlim. Havia perdido o filme na sessão de imprensa e fui recuperá-lo numa sessão de público. Me apareceu uma equipe da TV do Japão. Sabiam que eu era jornalista e pediram para me entrevistar. Comecei a falar sobre a série ‘É Triste Ser Homem’, sobre a trilogia de samurais que o Yamada exibiu nos últimos anos em Berlim. A entrevista não terminava. Devo ter ficado falando meia hora. A outra coisa que quero dizer é que descobri, em Paris, que havia morrido o Kon Ichikawa. Não conheço diretor que tenha feito dois filmes mais diversos. ‘A Harpa da Birmânia’ é uma reflexão budista sobre a guerra. O filme é de meados dos anos 50 e, no começo dos 60, Ichikawa fez ‘Fogo na Planície’ (Nobi), relatando um episódio de canibalismo durante a guerra na Manchúria. Ichikawa fez também o filme oficial sobre as Olimpíadas de Tóquio, em 1964. Nunca me esqueci das cenas de disputa de tiro e arco, em que Ichikawa focava e desfocava as imagens, em busca de efeitos plásticos. O que menos parecia lhe interessar era o registro, propriamente dito, dos jogos. Ichikawa já devia ter passado dos 90 anos. Era um velho safado. Nos 60, ele também dirigiu ‘Estranha Obsessão’ (Kagi), sobre um sujeito senil que exercitava o próprio ciúme como forma de recuperar a potência perdida. o filme era com Machiko Kyo, a grande estrela japonesa dos anos 50, que tinha uma cena impressionante (se a memória não me estiver falhando…) de histeria no banheiro da casa.