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Luiz Carlos Merten

20 Fevereiro 2008 | 15h22

No post anterior, falei do cinema japonês, a partir do ciclo programado pelo CCBB para homenagear o centenário da emigração japonesa. Deixem-me voltar ao assunto. Há dois anos participei de uma comissão da Petrobrás que avaliava roteiros. Dali saíram filmes como ‘Cão sem Dono’ e ‘Maré’, entre outros. Quase morri argumentando para garantir que entrasse na lista de selecionados o roteiro de ‘O Meu Pé de Laranja Lima’, que Marcos Bernstein adaptou do romance de José Mauro de Vasconcelos (filmado por Aurélio Teixeira por volta de 1970). Achei o roteiro lindo, mas o que encantou foi que reencontrei no trabalho do Bernstein – o delicado co-roteirista de ‘Central do Brasil’ e diretor de ‘O Outro Lado da Rua’ – alguma coisa de ‘O Corvo Amarelo’, que Heinosuke Gosho realizou em 1957 (e que era um dos filmes preferidos de P.F. Gastal, em Porto Alegre). Morro de vontade de ver ‘O Meu Pé de Laranja Lima’ do Bernstein. Será que ele conseguiu finalizar o financiamento? Será que filmou? Foi na coluna do Gastal, na antiga Folha da Tarde, quando ele se assinava Calvero, em homenagem ao personagem de Chaplin em ‘Luzes da Ribalta’, que ouvi pela primeira vez a expressão ‘goshoismo’. Ela definia essa capacidade de fazer rir e chorar que tinha o Gosho. Seu filme contava a história deste garoto com problemas em casa que só desenhava corvos amarelos na sala de aula. A cor do filme! Não tenho o menor fundamento para dizer o que vou escrever, mas duvido que o Zurlini não tenha visto ‘O Corvo Amarelo’ antes de fazer ‘Cronaca Familiare’ (Dois Destinos). Existe, sempre existiu, o cinema japonês épico, violento, exótico. E, numa outra vertente, sempre houve um cinema japonês mais intimista. Mizoguchi buscava uma síntese; Ozu sentava-se, como observador, no tatame para ver dali a desintegração da família japonesa tradicional. Mais intimistas ainda, Heinesuke Gosho e Mikio Naruse falavam dos problemas do casal e das crianças. Gosho fez um filme lindo, alguma coisa como ‘Onde se Erguem as Chaminés’, sobre um casal na zona mais pobre, e industrial, de Tóquio. Menos conhecido, talvez, do que Mizoguchi, Naruse foi, como ele, o cineasta da mulher na sociedade controlada pelos homens, na qual ela só pode ser mãe sofredora ou prostituta. Alguém escreveu que Naruse tinha o sorriso de um homem que sofria. Tendo sofrido uma infância miserável e, depois, um começo difícil no cinema, ele foi sempre amargurado e desiludido. Fez filmes pessimistas e tristes, mas tão bonitos… ‘Quando a Mulher Sobe a Escada’, ‘História de Mulher’, ‘Corações Inquietos’. Haveria tanta coisa para rever no ciclo do CCBB e nem estamos falando do cinema japonês atual.Mesmo que não sejam todos os filmes dos meus sonhos, vamos lá!

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