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Luiz Carlos Merten

15 Março 2011 | 16h14

Não tenho tido coragem de encarar o tema da tragédia do Japão. A gente vê tantos filmes catástrofe de Hollywood, mas aí uma catástrofe de verdade nos deixa aturdidos. Talvez porque o roteirista (Deus?) não segue uma regra básica. Em geral, existem filmes sobre terremotos ou tsunamis ou ameaças nucleares, mas misturar as três coisas supera qualquer ficção e só mesmo a realidade pode fazer. Assisti, há pouco, em Berlim, ao filme russo que trata da tragédia de Chernobyl, ‘Innocent Saturday’, de Alexander Mindadze. Na verdade, Chernobyl fornece o fundo e o filme é sobre outra coisa, sobre o esfacelamento da antiga União Soviética e sobre a manipulação dos indivíduos por meio do controle da informação. Tenho pensado muito naquele filme. Todo mundo reclamou da câmera bêbada do diretor, mas ela me pareceu um recurso desestabilizador muito interessante, além de conceitualmente adequado para o tema que aborda. Tenho visto, como todo mundo, essas imagens terríveis, assustadoras. Recebi um e-mail que muitos de vocês talvez já conheçam. Somando o dia do tsunami com o do ataque às torres gêmeas, o resultado é 21 de dezembro de 2012, última data do calendário maia. O que significa isso? O início do Armageddon? Uma ação do homem, uma reação da natureza? Como misturar as duas coisas? Mas, como, misturando-as, não achar que se trata de uma circunstância perturbadora?   Vamos esperar por 22 ou 23 de dezembro do ano que vem para respirar aliviados. Mas o pior é o bombardeio de informação. O tempo todo estamos vendo essas imagens e ouvindo comentários piegas ou sensacionalistas. Talvez seja uma forma de fuga. É difícil lidar com situações dessa magnitude. E, ao mesmo tempo, a vida continua. Obama está chegando ao Brasil, na semana que vem teremos a estréia mundial de ‘Rio’, numa junket que deve trazer ao País uma parcela importante da imprensa do entretenimento de todo o mundo. Vocês vão ver. Vamos passar da tragédia japonesa para o tapete vermelho de ‘Rio’ com um sorriso dos apresentadores. Tudo faz parte do mesmo espetáculo. Sei que ando chapado. Para os japoneses, deve ser terrível. Confrontados com o próprio passado, revivem a tragédia de Hiroshima e Nagasaki num desastre que pode ser muito maior. Nestes momentos, confesso que gostaria de acreditar num Pai misericordioso, a quem pedir socorro para todos os sofredores.

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