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Jack Nicholson, 70 anos

Luiz Carlos Merten

21 Abril 2007 | 19h49

Não pretendo entrar em detalhes, mas passei um dia de cão, vítima de algum virus que me provocou diarréia. Enquanto não estava no banheiro estava vendo filmes na TV paga. Vi dois que me tocaram e sobre os quais pretendo falar, mas antes quero colocar dois posts sobre atores, Will Smith e Jack Nicholson. Vamos por partes, como diria o esquartejador. Começo por Jack. Você sabia que hoje ele está completando 70 anos? Tive certa vez o privilégio de entrevistá-lo em Veneza. Era para ser um pequeno grupo, mas os meus companheiros de mesa não apareceram e, assim, vi-me cara a cara com o homem. Jack Nicholson não é intimidador, como outros astros, mas desarma qualquer um com aquele sorriso debochado que tantos grandes diretores souberam usar. Jack, como você, cinéfilo, deve saber, começou fazendo pequenos papéis em filmes de Roger Corman, incluindo o cultuado A Pequena Loja de Horrores, de 1960. Cinco anos depois, participou de um western que é considerado um marco da produção independente dos EUA – The Shooting, de Monte Hellman. A fama ainda demorou mais quatro anos para se consolidar com Sem Destino, o mítico Easy Rider. Jack fazia o advogado bêbado cuja história cruzava a dos motoqueiros Peter Fonda e Dennis Hopper, sendo que o segundo também era o diretor do filme. Numa época de contestação, marcada por eventos tão díspares quando a ressaca de Maio de 68, a Guerra do Vietnã, a contracultura e os hippies, o filme teve uma repercussão enorme, produzindo inúmeras imitações. A América da geração beatnik, do álcool, representada por Jack, encontrava a das drogas, que Fonda e Hopper encarnavam, e isso acontecia na estrada, dentro dessa verdadeira fascinação do cinema americano pelo outsider que recusa o ajustamento social, preferindo viver à margem. O western criou esse tipo de personagem mítico que, no limite, estabeleceu um conceito – o do individualista libertário. De Shane, no western clássico Os Brutos também Amam, de George Stevens, a Homem Sem Rumo, de King Vidor, e Sua Última Façanha, de David Miller, atores como Alan Ladd e Kirk Douglas criaram um tipo que Clint Eastwood, um dia, retomou – O Cavaleiro Solitário. Transformado em ícone nos anos 70, Jack Nicholson ocasionalmente vestiu o terno e a gravata, mas na maioria das vezes permaneceu rebelde. Ele ganhou três Oscars – dois de melhor ator, por Um Estranho no Ninho e Melhor É Impossível, de Milos Forman e James L. BRooks, e entre ambos um de coadjuvante por Laços de Ternura, também de James L. Brooks. É até difícil escolher, entre tantos grandes filmes e papéis, um para ser o mais representativo do estilo de atuar de Jack Nicholson. Fico entre dois – o maluquinho de Um Estranho no Ninho, um grande Forman, e o outro, mais perturbador, do escritor perturbado de O Iluminado, de Stanley Kubrick. Mas, ao fazer essa escolha, eu próprio me pergunto – e o JJ Gittes de Chinatown, de Roman Polanski? O enigma do personagem (e do filme) foi tão forte que o próprio Jack, fez, como diretor, da seqüência de Chinatown seu melhor trabalho atrás das câmeras, com A Chave do Enigma. É um grande carreira. Que nos venham mais filmes de Jack Nicholson. E você, não dizer qual é seu favorito?