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Luiz Carlos Merten

06 Abril 2009 | 12h22

Meu editor está querendo me matar. Tenho matérias do dia, na edição de amanhã do ‘Caderno 2’, e cá estou postando, postando… Jack Arnold. Nas ‘trocentas’ vezes em que entrevistei Bertrand Tavernier – por telefone, em festivais – surgiu o nome dele certa vez e o Tavernier acha que justamente o filme mais famoso do Arnold, ‘O Monstro da Lagoa Negra’, é supervalorizado. Arnold é um caso curioso. Fez seu aprendizado como documentarista, trabalhando com ninguém menos do que Robert Flaherty, no Signal Corps do Exército, durante 2ª Guerra, e até foi indicado para o Oscar por seu longa de estréia, ‘With Those Hands’, obra de encomenda do sindicato dos trabalhadores nas indústrias de confecções para mulheres. Embora tenha sido indicado para o Oscar de documentário, devia ser um docudrama, pois Joseph Wiseman, que foi depois o Dr. No na estréia de 007 no cinema, fazia um sindicalista, um agitador comunista (em pleno macarthismo). Era tudo verdade? Não sei, mas Arnold, em Hollywood, fez história como diretor de fantasias. O visual do monstro da lagoa negra, o personagem, lhe foi suigerido pelo Oscar, o prêmio da Academia de Hollywood, e até Tavernier reconhece que a cena em que o mutante anfíbio vê Julie Adams nadar é um momento raro de antologia (e de erotismo) na produção da época. ‘Veio do Espaço’, que se baseia em Ray Bradbury, foi feito em 3-D e até hoje é um dos melhores exemplares do formato. A cena da avalanche, no começo, e a outra em que Richard Carlsson se aproxima da caverna são impressionanters (ou será minha lembrança?). Foi Arnold quem ‘inventou’ William Castle – sabem aqueles gimnicks, aqueles truques para atrair o público do famoso diretor e produtor? Muito antes dele, Arnold lançou rochas de isopor no público que assistiu às primeiras sessões de ‘Veio do Espaço’. Tavernier diz que ‘Encontros Imediatos do Terceiro Grau’, de Steven Spíelberg, é cria de ‘Veio do Espaço’ e eu acrescento que ‘E.T.’, também de Spielberg, reinventa ‘A Mensagem do Planeta’, sobre filhos de cientistas que constróem com alienígena uma arma para anular os engenhos destruidores que seus pais estão sendo forçados a desenvolver. Por melhores que sejam esses filmes – e por mais assustadora que seja a aranha gigante, ‘Tarântula’, de Arnold -, a obra-prima do diretor é ‘O Incrível Homem Que Encolheu’, que se baseia em Richard Matheson. A história do homem que vai diminuindo, diminuindo e, no desfecho, reduzido a proporções liliputianas, grita que existe, possui uma angústia existencial que vai muito além da ação (e dos efeitos). E tudo é narrado visualmente. A terceira parte do filme nem tem diálogos. Apesar de seu reconhecimento como autor ‘fantástico’, Jack Arnold fez também thrillers e westerns. Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, considera ‘A Soldo do Diabo’, bangue-bangue de 1957, com Orson Welles e Jeff Chandler, medíocre, mas o começo do filme é espetacular – como o de ‘A Marca da Maldade’, que o próprio Welles fez na Universal, no ano seguinte, e Tavernier suspeita de que exista ali uma influência do grande ator e diretor de ‘Cidadão Kane’. Arnold fez ainda comédias e ‘Rato Que Ruge’, com Peter Sellers e Jean Seberg, pelo menos no meu imaginário, é muito engraçada. O filme conta a história de bairro de Londres que se emancipa, vira país, um grão-ducado, e declara guerra aos EUA. A piada inicial, antes dos créditos, é coisa de louco. Sempre ouvi dizer que ‘Rato que Ruge’ foi o filme que impôs Sellers nos EUA. Por volta de 1960, o diretor se associou a Blake Edwards para fazer séries como ‘Peter Gunn’ e ‘Mr. Lucky’ na TV. Não seria de admirar, agora já sou eu delirando, se a amizade entre Arnold e Edwards foi que levou a que Peter Sellers se convertesse no Inspetor Clouseau e no mito que todo cinéfilo reconhece.