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Luiz Carlos Merten

18 Janeiro 2012 | 17h07

Fui ver ontem ‘Dois Coelhos’, de Afonso Poyart, para entrevistar o diretor e o elenco do filme – Alessandra Negrini, Caco Ciocler, Fernando Alves Pinto e Marat Descartes. Gostei demais do Marat, mais do que qualquer outra coisa no filme, mas o encontro com Alessandra foi assim como a realização de um sonho de consumo. Prometo voltar ao assunto. Agora quero falar sobre ‘J. Edgar’, a que assisti agora pela manhã. Antes do filme, propriamente dito, reencontrei Luiz Antônio Giron e Inácio Araújo. Giron, depois de trocarmos as amabilidades de praxe, foi fundo numa confissão – anda muito perturbado com a sensação de perda. Percebi logo que falávamos de Daniel Piza e aproveito para registrar. Muita gente fez comentários no meu post sobre o Daniel. Alguns foram críticos. Não censurei ninguém. Ou melhor, censurei uma pessoa. Em toda a história desse blog, apliquei o direito de veto somente duas vezes, porque os comentários extrapolavam a crítica para atingir a ofensa pessoal e isso não posso permitir. Um, sobre a jornalista Maria do Rosário Caetano e outro, esse agora, se regozijando pela morte do Daniel, dizendo que ele deveria arder no inferno, essas coisas. Fiquei tão chocado que resolvi esquecer o assunto,  mas hoje, a conversa com o Giron me fez sentir a necessidade de postar. Não sou nenhuma Pollyana, mas levar a tal extremo a discussão de ideias me parece excessivo. É o que ocorre quando as pessoas têm o poder. Algumas são tão totalitárias que se esmeram em criar, aqui na Terra, o inferno em que gostariam que seus inimigos ardessem. Isso tem a ver com o filme de Clint Eastwood. Fiquei muito perturbado com ‘J. Edgar’. Assistir ao filme foi,  para mim, uma experiência penosa. No final, tomei um café com o Inácio e lhe disse que não sabia se havia assistido a um grande filme ou a uma grande m… Exagero, naturalmente. É um grande filme, mas que me custou ver. Percebem o paradoxo? Vamos por etapas. Vi uma foto recente de Clint. Em maio, ele completa 82 anos. Deu uma caída considerável. O filme talvez tenha a ver com isso. É um filme sobre mortos, sobre gente e ideais que estão morrendo, ou já morreram. O roteiro apanha J. Edgar Hoover em dois momentos, quando ele está revolucionando o FBI e, depois, quando velho, quando se corromperam os ideais da juventude e ele virou um monstro obcecado por poder. O bacana deste final é que Hoover, na ficção de Clint, encontra um adversário pior que ele. Falei aqui outro dia sobre o Nixon de Ron Howard. O produtor de Howard, Brian Grazner, produz ‘J. Edgar’. Assisti a uma entrevista de Clint na TV norte-americana em que ele disse que nunca foi tão difícil conseguir financiamento para um filme. E nem foi tanto pelo tema ‘político’. Seus últimos fracassos de público o tornaram non grato na indústria, por mais prestígio que seus filmes tenham junto à crítica. Grazner, parceiraço de Ron Howard, deve ter tido sinal verde do outro para apoiar Clint, por mais diferentes que sejam seus enfoques do ex-presidente. Gosto disso. O Hoover de Clint é um louco fissurado na ameaça comunista, na defesa da pátria e no culto à mãe. É um gay enrustido, que não sai do armário nem a pau, e destrói aqueles a quem ama. À maneira de Otto Preminger, Clint constroi sua crítica numa perspectiva ontológica. Para abordar a sexualidade de Edgar, ele recorre a dois personagens – a secretária e o assistente. Ambos envelhecem terrivelmente e a maquiagem de Naomi Watts e do ator que faz Tolson foi o que mais me incomodou. Não gosto, ou gosto cada vez menos, de Leonardo DiCaprio, que mantém a cara de bebê num corpo de homem que começa a exibir as marcas do tempo. Mas tenho de admitir que ele é adequado para o papel, e a maquiagem ajuda. Esse homem criado à sombra da mãe, feito bebê crescido, chega a ser cruel o uso que Clint faz do ator para compor seu personagem. O jogo de bastidores, a canalhice de Hoover, que chantageava presidentes e espionava todo mundo, Clint não poupa nada. As cenas mais impressionantes são as mais ‘fictícias’. Buscam dimensionar na tela o J. Edgar gay. Sua reação após a morte da mãe e a cena em que se senta para ‘tricotar’ com Tolson sobre o mau-gosto de Desi Arnaz. Parecem, ou melhor, são duas tias ferinas. Já disse aqui que gosto quando diretores ‘machos’ abordam o universo gay. John Huston, Robert Aldrich, Clint. São duros, batem forte, mas há neles uma compaixão pelo sofrimento que diretores gays, como meu amado Visconti, não conseguem ter, porque caem na autocomiseração. Sei que muita gente vai discordar disso, a legião que cultua ‘Morte em Veneza’, para mim um Visconti menor, ou ‘discutível’, apesar da suntuosidade cênica. Conversando com Inácio, concordamos num ponto – o personagem de ‘J. Edgar’, o próprio tema (mas qual é o ‘tema’?), tudo é ingrato no filme. Apesar disso, Clint está lá, inteiro. Me pareceu um filme triste, deprê. Um grande filme? Talvez. É curioso que, antes da projeção, tomando um café com Neusa Barbosa, ela comentou sobre o filme de David Fincher, ‘Millenium’, que viu ontem. Neusinha acha que Fincher pesou a mão no estupro e, depois, na vingança da garota com a tatuagem do dragão. O estupro, segundo ela, é filmado do ponto de vista de um voyeur (o diretor?). É um olhar, ou um sentimrento feminino, que não compartilho. Em compensação, me deprimiu o voyeurismo de J. Edgar, quando ele ouve a fita do encontro sexual de John Kennedy e o telefone toca justamente para anunciar que o presidente acaba de ser assassinado em Dallas e Edgar tem aquela reação, ligando para Robert Kennedy, o secretário de Justiça que o hostiliza. ‘J. Edgar’ é um grande filme que não gostei de ver, mas me pergunto se é mesmo um grande filme. Há tempos o cinema de Clint Eastwood me produz um misto de admiração e repulsa. Tenho de rever ‘J. Edgar’. Preciso decantar mais o filme, mas queria compartilhar logo essas primeiras impressões com vocês.