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Luiz Carlos Merten

20 Abril 2011 | 10h17

Só agora vi o comentário do César Jacques, dizendo que Bolognini era o seu autor italiano favorito, com Visconti. Já escrevi aqui que pertenço a uma geração de críticos de Porto Alegre (Jefferson Barros, José Onofre) que amava Visconti e despachava Bolognini como seu epígono. Lembro-me de Jefferson, a propósito de um daqueles filmes com Claudia Cardinale, acho que o ‘Senilità’, Desejo Que Atormenta, ironizando o detalhismo de cenógrafo de Bolognini e pedindo que chamassem o ‘autor’ (que seria Visconti). Bolognini tinha algo de mórbido. Seus grandes filmes com Claudia Cardinale (‘La Viaccia’, Caminho Amargo, ‘Senilità’, ‘Libera Amore Mio’) e também a sua ‘Dama das Camélias’, com Isabelle Huppert, ‘A Grande Burguesia’, com Catherine Deneuve, os dois dramas sucessivos com Massimo Ranieri, ‘Metello’ e ‘Bubu’, e o suntuoso ‘Aquele Novembro Maravilhoso’, em que ele talvez tenha oferecido a Gina Lollobrigida seu mais belo papel, tratam sempre dos mesmos temas – a impotência do homem diante da mulher e a mistificação dessa última, o que talvez tivesse a ver com sua condição de homossexual. Por volta de 1960, e com roteiro de Pier Paolo Pasolini, Bolognini fez uma trinca de filmes muito interessantes. O mais famoso é ‘O Belo Antônio’, com Marcello Mastroianni, adaptado do romance de Vitaliano Brancati – e Pasolini também era homossexual; interessava a ambos discutir o machismo italiano por meio de uma sociedade arcaica como a siciciliana -, mas eu confesso que prefiro os outros dois, que são dramas ‘proletários’. Pasolini era fascinado pelo ‘ragazzi di vita’ e Bolognini retratou-os em ‘A Longa Noite de Loucuras’ e ‘Um Dia de Enlouquecer’, La Giornata Balorda. Jean Sorel sai para um dia na vida. Precisa arranjar dinheiroi para comprar uma barraca de feira, não me lembro se de frutas. Ele roda o dia inteiro, desorientado como o operário de ‘Ladrões de Bicicletas’, de Vittorio De Sica. Mas Jean Sorel é belo, jovem, tem aquele sorriso. Seduz a burguesa Lea Massari, com quem faz sexo e ela lhe paga pelo prazer, o que, no limite, faz com que ele tenha de se coisificar, como uma prostituta, para receber o dinheiro de que necessita. Nunca revi ‘Um Dia de Enlouquecer’, mas, no meu imaginário, ele faz parte de uma época muito rica do cinemas italiano. Existem filmes ‘pequenos’ dos anos 1960, que nem sempre são citados pelos historiadores de cinema, mas que fazem parte da minha memória. Esses de Bolognini e também ‘A Noite do Massacre’ e ‘Enquanto Durou o Nosso Amor’, de Florestano Vancini, ‘A Derradeira Missão’, de Gianni Puccini’ etc. Sobre Pasolini – não creio que tenha sido um grande cineasta, mas acho que seu valor como polemista foi fundamental no cinema italiano dos anos 1960 e 70. São poucos os filmes de Pasolini de que realmente gosto, como ‘cinema’ – ‘Mamma Roma’, com a mítica Anna Magnani; ‘O Evangelho segundo São Mateus’; ‘Teorema’, em que Silvana Mangano é sublime; ‘Medeia’, pela loucura de Callas; e ‘Decameron’, pela euforia do sexo. O último Pasolini, ‘Salò’, me escandaliza mais pela falta de tensão interna entre os planos do que pelas perversões associadas ao fascismo. É como se Pasolini, enojado por seu tema, estivesse filmando de qualquer jeito, não sei se me explico bem. Mas ele foi um senhor personagem!