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Luiz Carlos Merten

27 Outubro 2006 | 10h38

Estou atrasado para fazer a coluna dos Filmes na TV de amanhã, do Estado, mas comecei a postar, uma coisa puxa a outra e eu fico aqui escrevendo, escrevendo, talvez para recuperar o tempo perdido de ontem, quando não tive tempo de postar quase nada. Mas falando agora em Pasolini, e Bolognini, viajei na memória, lembrando de todos aqueles filmes italianos que via no Rex, em Porto Alegre, há 40 anos. Era guri, como se diz no Sul, e muitos daqueles filmes fizeram minha cabeça. Rocco, claro, que foi um manifesto estético e político para mim. Visconti, acima de Fellini e Antonioni, mas também Dino Risi, as comédias do Comencini (adorava Mulheres Perigosas) e os diretores que amava em segredo, porque naquela época não era de bom tom gostar de Bolognini, de Pietro Germi, de Damiani. Pertenço a uma geração que tratava Germi a pedradas, mas tenho a impressão de que Divórcio à Italiana deve ser melhor do que parecia, há décadas, e eu guardo uma lembrança muito forte de outro filme, Aquele Caso Maldito, um policial que o Germi dirigiu e interpretou, com Claudia Cardinale e a Eleonora Rossi Drago no elenco. Da mesma forma me lembro, quase como um subproduto deste, de O Batom, o primeiro Damiani, também policial e com um desfecho que nunca esqueci – a canalhice do Pierre Brice, um sub-Delon, bonitinho mas ordinário, desmascarada quando entra em cena a garota de quem ele abusou, vítima da paralisia, caminhando com dificuldade com aquelas muletas. A viagem é interminável. Outro filme que me acompanha é A Casa Intolerante, do Bolognini, com Walter Chiari. Até hoje acho que Gilberto Braga baseou-se no Bolognini para criar o desfecho impactante de Vale Tudo, quando Beatriz Segall faz aquela banana para o público. Foi um choque para milhões de telespectadores, mas eu me lembrava da Laura Adani, fazendo banana e gritando ‘Arrangiatevi!’ no desfecho do filme do Bolognini – arranjam-se, ela berrava para os marinheiros que batiam à sua porta, na casa alugada quase de graça, porque antes ali funcionava o bordel que eles freqüentavam. A falta de moradia foi tratada como tragédia pelo neo-realismo, logo após a 2ª Guerra, e retomada como melodrama pelo De Sica em O Teto, acho que de 1956. Bolognini voltou ao tema como farsa, acho que em 1958/59. Às vezes tenho muita vontade de rever todos esses filmes. Mas onde, mas como? O mercado é formatado para o novo, e para a produção de Hollywood. As pesquenas distribuidoras que trabalham com esse tipo de produto seletivo (Aurora, Versátil) lançam dois, três títulos por mês. Levariam séculos para resgatar todos os filmes que gostaria de rever, e muitos deles nem devem estar entre suas prioridades.