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Italiani, buona gente

Luiz Carlos Merten

26 Novembro 2007 | 15h09

Estou adorando o evento Venezia Cinema Italiano 3, mas tenho de admitir que ando intrigado com uma coisa. Não estou vendo os coleguinhas nas sessões a que tenho ido, às 9 da noite, no Cine Bombril. Até pensei que devem estar em Brasília, mas se isso é verdade devem estar faltando quartos no Hotel Nacional, para acomodar a tanta gente. Vi ontem ‘Non Pensarci’, de Gianni Zanasi, com Valerio Mastrandea, que venceu o Prêmio Franceso Pasinetti, reservado ao melhor filme italiano da Mostra de Arte Cinematográfica de Veneza, neste ano. Achei bem interessante e o filme já me apanhou desde o começo, quando, naquele concerto de rock, o vocalista da banda se atira nos braços do público, ninguém o segura e ele se estatela no chão, quebrando o braço. O cinema e a TV já popularizaram tanto a imagem do roqueiro que salta nos braços do público que achei muito original, da parte de Zanasi, mostrar o que ocorre quando a confiança é quebrada. É um pouco o tema de ‘Non Pensarci’. O cara, depois de ver o amigo quebrado, chega mais cedo em casa para descobrir a mulher na cama com outro músico – de quem ele comenta o novo disco, antes de se mandar, para mostrar superioridade (ou simplesmente para não admitir que está abalado). Com dois golpes nas costas, o herói parte em busca da família, mas ela é disfuncional, o equilíbrio é precário e Valerio Mastrandea ainda faz uma descoberta crucial quanto à própria identidade. Achei a ‘desconstrução’ da família e do próprio relato bem interessante e, embora excessiva, a utilização da música erudita como contraponto ao rock também me pareceu uma filiação conseqüente do diretor à tradição operística do cinema italiano, representada por autores como Luchino Visconti e Marco Bellocchio. Não vou dizer que seja uma obra-prima, mas estou gostando de ver este novo cinema italiano tão desconhecido por aqui. E o tal Mastrandea, de que eu não sei nada, é bom ator. Gostei do cara. Venezia Cinema Italiano 3 prossegue hoje no Cine Bombril, às 21 horas, com ‘Hotel Meina’, de Carlo Lizzani. A história passa-se durante a 2ª Guerra, no Hotel Meina, em Lago Maggiore, onde 16 judeus ficam à mercê de um destacamento nazista, na célebre noite de 8 de setembro de 1943, quando a Itália celebrou um armistício com as forças aliadas. Lizzani é um veterano que veio do neo-realismo e este episódio que ele agora retrata já foi visto em filmes de outros cineastas de sua geração – ‘Il Carro Armatto del 8 Settembre’ (A Derradeira Missão), de Gianni Puccini; e ‘La Lunga Notte del 43’ (A Noite do Massacre), de Florestano Vancini, este último baseado num relato de Giorgio Bassani, o mesmo autor de ‘O Jardim dos Finzi-Contini’, que Vittorio De Sica adaptou, ganhando, em 1971, seu terceiro Oscar de filme estrangeiro (após ‘Ontem, Hoje e Amanhã’ e ‘Casamento à Italiana’, mais um prêmio especial por ‘Vítimas da Tormenta’/Sciascià, de 1945-46, que só foi lançado dois ou três anos maios tarde nos EUA).

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