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Cultura » Italiani, brava gente!

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Luiz Carlos Merten

19 Maio 2009 | 13h42

CANNES – Estou redigindo esses posts correndo para poder assistir ao novo Resnais e o laptop me falhou justamente quando salvava o texto sobre Bellocchio, ‘Vincere’, que assisti ontem à noite, após o glorioso Visconti. Bellocchio conta a história da mulher esquecida de Benito Mussolini, que o Duce usou – ela lhe deu o dinheiro para fazer seu jornal, ‘Il Popolo d’Italia’ – e depois rejeitou, fazendo com que fosse internada num hospício com o filho. No início, estava desconcertado. Parecia um ‘Atraçãso Fatal’, em que a mulher rejeitada decide infernizar a vida do ex. Mas o filme não é sobre isso. Se tivesse aceitado a condil~çao de ex-amante, Ida, é seu nome, talvez tivesse gozado das benesses do regime, como outras amantes. Mas ela se casoui na igreja e reivindicava o direitro de esposa. Queria que o filho fosse reconhecido como primogênito. Ambos conheceram o inferno. Mussolini prometia a vitória para os italianos, daí o título, mas se alguém venceu nessa história foi Ida, porque ela terminou por obter, no imaginário popular, o reconhecoimento que a historiografia oficial lhe negou. O diretor compara a personagem a Antígona e define seu filme como ‘melodrama verdiano’. Seu partido estético de misturar cenas filmadas e arquivo com música de ópera dá muito certo e a ópera, às vezes, é bufa (já que o próprio Benito, a princípio representado por um ator e depois só aparecendo em cinejornais, como a ex-mulher o via, era um ‘buffone’). Só para lembrar, o primeiro Bellocchio, há, sei lá, 35 anos, ‘De Punhos Cerrados’, já era operístico. O filme é muito bom – e muito melhor do que ‘Sangue Pazzo’, de Marco Tulio Giordana, sobre um assunto parecido (o massacre da amante de um diretor de cinema simpatizante do regime fascista), que passou aqui no ano passado. Ou foi há dois anos?