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Itália/Brasil na Mostra

Luiz Carlos Merten

22 Outubro 2006 | 11h18

Hoje tem Bruno Dumont, Flandres; Pedro Almodóvar, Volver; Robert Altman, A Última Noite; e Michael Winterbottom (em parceria com Mat Whitecross), Caminho para Guantánamo, todos nomões do cinema mundial. Quem sou eu para dizer – não veja? Há, porém, coisas mais atraentes. Daqui a pouquinho, às 14 horas, você pode ver no Olido Mestres Americanos John Ford/John Wayne: O Cineasta e a Lenda, de Sam Pollard, que eu, sinceramente, não sei se terá lançamento comercial no Brasil e é um filmaço para cinéfilos interessados em saber mais sobre uma parceria fundamental da história do cinema. Insisto que vale a pena investir no turco Nuri Bigle Ceylan, cujo filme Climates (16 horas no Unibanco 1) é uma das atrações mais festejadas pela crítica inglesa no Festival de Londres, que corre ao mesmo tempo que a Mostra (e é muito menor). E há um inédito dos Irmãos Taviani (e que inédito!) – Sob o Signo do Escorpião, na retrospectiva do cinema político italiano, às 20h20 no Arteplex 4. Tem muita coisa maravilhosa na Mostra, mas se eu tivesse de escolher ou indicar dez filmes, confesso que dois estariam nessa retrospectiva – De Punhos Cerrados, a ópera sobre a corrupção familiar de Marco Bellocchio, e justamente Sob o Signo do Escorpião, que foi feito sob o impacto de Maio de 68, tratando da euforia revolucionária. No seu filme seguinte, San Michele Aveba Un Gallo, de 1971, os irmãos Taviani voltariam atrás, expressando o desencanto pós-revolucionário. Na minha memória, a euforia permanece viva, como um grande momento de cinema. Mas o dia é do Brasil, com ficções como O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, do Cao Hamburger (gosto demais do filme), Os Doze Trabalhos, do Ricardo Elias, mais Serras da Desordem, do Andrea Tonacci, que não gosto tanto, mas respeito, e As Tentações do Irmão Sebastião, do José Araújo, de Sertão das Memórias, que não integrou a Première Brasil, no Rio, e eu estou louco para ver (às 21 horas no Unibanco 3). No quesito documentário, Niemeyer – A Vida É Um Sopro, de Fabiano Maciel, às 20h30 no CineSesc, corre o risco de ser considerado muito laudatório, mas é um tributo impressionante ao gênio dele (arquiteto que se preze tem de ver), além de impressionar mais ainda pelo desapego com que o cara vai falando – é tudo uma merda, a ignorância dá as cartas no meio de quem tem o dinheiro e, conseqüentemente, o poder. Só um Niemeyer para ter essa clareza de pensamento. E o documentário, por mais hagiográfico que seja, não omite certas contradições que são muito interessantes e mostram que o nosso gênio não está acima do bem e do mal – uma tendência ao autoritarismo, por exemplo. E não posso esquecer do Cartola, de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, às 21h30, no Arteplex 1, logo depois de O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (às 19h20). Era o meu documentário preferido na Première Brasil, no Rio, mas não levou o prêmio do público nem o do júri. Levaria o meu prêmio, se eu pudesse dar um.