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Luiz Carlos Merten

14 Novembro 2007 | 18h44

Morreu – há dois ou três dias, mas o anúncio foi feito somente hoje – Ira Levin, o autor do romance em que Roman Polanski se baseou para fazer ‘O Bebê de Rosemary’, com Mia Farrow, em 1968. O próprio Ira culpava-se porque o ‘Bebê’ levou a ‘O Exorcista’ e ele se julgava um pouco responsável pela onda de satanismo que assolou o mundo nas últimas décadas (e na qual incluía os atuais fundamentalismos religiosos). Você pode até achar que Ira Levin era cínico, embora talvez fosse só honesto, pois podia se culpar, mas, como dizia, nunca devolveu os cheques autorais que recebia pela venda dos direitos de seus livros. Ele foi um autor bastante filmado. A obra-prima é ‘Rosemary’, claro, mas houve, também, ‘Os Meninos do Brasil’, que virou filme ruim de Franklin J. Schaffner, embora uma coisa, pelo menos, fosse digna de nota – em toda a história de Hollywood, nunca houve outro confronto como aquele entre Gregory Peck, na pele de um nazista tipo Josef Mengele, e Laurence Olivier. Era completamente inusitado para um filme de ação – dois velhos se estapeando e, ofegantes, dando pontapés e tentando puxar a rala cabeleira um do outro. Ira Levin também escreveu dois outros livros que tiveram duas versões cada. ‘The Stepford Wives” virou ‘Esposas em Conflito’, de Bryan Forbes, nos anos 70, e ‘Esposas Perfeitas’, de Frank Oz, com Nicole Kidman, em 2003 (ou 4). ‘A Kiss Before Dying’ foi filmado nos anos 50 por Gerd Oswald (‘Amor, Prelúdio de Morte’, com Robert Wagner e Jeffrey Hunter) e nos 90 por James Dearden (‘Um Beijo Antes de Morrer’, com Matt Dillon e Sean Austin). A versão antiga era melhor. Os críticos sempre trataram Ira Levin a pedradas e uma coisa que gostavam de dizer é que ele tinha uma fixação ‘ginecológica’ na ‘semente do mal’. Depois do diabinho de ‘Rosemary’ tentou criar 94 clones de Hitler em seu pesadelo brasileiro. Ok, nosso homem podia não valer grande coisa, do estrito ponto de vista literário, mas, como diluidor da grande tradição noir de Dashiell Hammett e Raymond Chandler, dava para o gasto e era um autor divertido, para se ler nas férias.