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Ionesco! E o chamado realista em… Philippe Garrel

Luiz Carlos Merten

17 Março 2018 | 13h10

Outro dia peguei-me pensando no que vou chamar aqui de ‘paradoxo Antonioni’. Sempre gostei mais dele que de Federico Fellini, mas acima dos dois colocava Luchino Visconti e Francesco Rosi. Para ser absolutamente honesto comigo mesmo, nunca sei direito onde colocar Roberto Rossellini. Devo ser único no mundo a colocar De Crápula a Herói/Il Generale della Rovere acima de Viagem na Itália, mesmo reconhecendo o impacto da chamada ‘desdramatização do roteiro’ sobre Jean-Luc Godard, François Truffaujt e Bernardo Bertolucci. Enfim… O Eclipse é o mais perfeito dos filmes e aquele final é um marco. O paradoxo. Antonioni escolheu como tema a incomunicabilidade. Fazia filmes para comunicar o incomunicável! Fomos ontem ver A Cantora Careca, no Teatro da Aliança Francesa, Dib Carneiro e eu. Encontramos Eduardo Tolentino, que queria comentar o Oscar comigo. Amamos, Tolentino, Gabriel Villela e eu, Dunkirk. The best – não levou. Como eu, Tolentino siderou por Eu, Tonya e, como eu, daria o prêmio de melhor atriz para Margot Robbie, que, óbvio, não levou. Há mais de 20 anos, uns 25/26, vou todos os anos a Paris. Atualmente, gosto de ficar num hotel em frente à Sorbonne, mas, quando havia, ficava no Argonautes, Rue de la Huchette. O hotel era de uma simplicidade franciscana, mas, além da localização, não precisava reservar. Era chegar, e sempre havia lugar para M. Merten. Quase em frente ao hotel, há um, pequeno teatro. O Théâtre de la Huchette apresenta, há 60 anos!, A Cantora Careca. Nunca fui. (Tolentino me disse que viu duas vezes.) A peça já foi batizada como marco zero da tendência ‘teatro do absurdo’. Eugène Ionesco escreveu-a no fim dos anos 1940. Nada a ver com Antonioni, talvez com Luís Buñuel, mas o texto irônico é feito de diálogos absurdos que, em bom português, não juntam coisa com coisa e expressam a total impossibilidade de comunicação entre os seis personagens. Chega uma hora em que alguém pergunta – ‘E a cantora careca, hein?’ Quem espera uma revelação faria melhor esperando Godot. Adoro o teatro do absurdo e a capacidade de dialogação e fabulação de Ionesco, mas chega uma hora em que aquilo me produz um mal-estar. Até onde esse homem (Ionesco, Tolentino?) vai/vão? A peça tem menos de uma hora. Um elenco perfeito. Timing de comédia – pá, pá,pá! Divertidíssimo, mas nada a ver com besteirol. Não sei até quando vai, mas recomendo com entusiasmo. E agora não vou juntar coisa com coisa, aparentemente, mas entrevistei Philippe Garrel, de O Amante de Um Dia, para uma matéria que sai na segunda no impresso. O teatro do absurdo suspende a realidade, ou promove uma falta de realidade para nos fazer refletir sobre o mundo, e o ‘real’. Sugiro que leiam, ou então, depois da publicação, eu posto aqui um trecho. Garrel e a realidade. O chamado realista. Vai ser minha contribuição à Mostra Aurora SP.