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Cultura » Inventor de Peckinpah?

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Luiz Carlos Merten

04 Novembro 2009 | 17h06

Only the Valiant, Só os Bravos. E se Gordon Douglas tiver ‘inventado’ Sam Peckinpah? De onde me veio essa ideia estapafúrdia? Ao ver o DVD de ‘Resistência Heróica’, Only the Valiant, na Livraria Cultura do Shopping Pompeia. O western é de 1951, numa época em que Hollywood começava a revisar a história do Oeste. John Ford havia sido o pioneiro, um dos (pelo menos), ao mostrar Henry Fonda como aquele enlouquecido oficial capaz de sacrificar seus homens à glória pessoal – Custer? – em ‘Sangue de Herói’ (Forte Apache), de 1948. Veio depois o western de Gordon Douglas, precedido, em 1950, pelo bangue-bangue pró-indio de Delmer Daves (‘Flechas de Fogo’). Todos esses film,es fizeram história. No de Douglas, Gregory Peck faz um oficial odiado pelos subordinados, que o culpam pela morte dos integrantes de uma patrulha que ele lançou contra os peles-vermelhas. Hoje em edia, o espectador que assiste a ‘Resistência Heróica’ talvez nem se dê conta, mas há 58 anos a violência do filme foi considerada brutal, quando não excessiva. Uma década mais tarde, filmando os pistoleiros do entardecer, Sam Peckinpah levaria adiante a violência de Douglas. ‘Resistência Heróica’ talvez seja o ‘Juramento de Vingança’ de Gordon Douglas, assim como o atormentado Gregory Peck antecipa alguma coisa do major Dundee de Charlton Heston na opbra-prima truncada, porque montada à revelia do autor, de Peckinpah. Hoje, reavaliando o cinema de Gordon Douglas, pode-se afiermar que seu realismo de cena – e a brutalidade de seus westerns – não eram apenas uma afirmação de mise-en-scène, mas também uma maneira de questionar o mito civilizatório do branco no Oeste selvagem. Aliás, ao escrever isso, não posso deixar de pensar em Claude Lévi-Strauss, que morreu centenário no sábado. O pai da moderna antropologia, que introduziu o estruturalismo na disciplina, chegou racionalmente, e talvez antes, à mesma conclusão de Douglas em seu western, que talvez seja a obra de um intuitivo, mas duvido – não existe diferença significativa entre o pensamento primitivo e o civilizado. Em 1964, Pecdkinpah já havia feito ‘Pistoleiros do Entardecer’ e estava em pleno processo de ‘Juramento de Vingança’, que é de 1965, quando Gordon Douglas fez sua obra-prima, ‘Rio Conchos’. Você deve se lembrar de Lassiter, Richard Boone, o Antônio das Mortes de Hollywood, que caçava índios para se vingar e vacilava justamente ao encontrar numa pele-vermelha a retidão que não identificava mais na sociedade dos brancos. Estou escrevendo tudo isso de memória. Quero voltar ao Shopping Pompeia para comprar ‘Resistência Heróica’. Tenho a impressão de que boa parte de ‘Rio Conchos’ já está naquele western mais antigo. Lembro-me, quando garoto, que o western era considerado o gênero norte-americano por excelência. Hoje em dia, é território de alguns nostálgicos. Outro dia comentava com meu colega Ubiratan Brasil, que resenhou a série de entrevistas de Jorge Luis Borges que está saindo pela Hedra. Borges, o mais erudito dos grandes escritores latinos, amava o western. Por que? Porque o gênero, ao trabalhar o mito, lhe permitia recuperar, criticamente, o épico. As reflexões de Borges sobre o western estão no volume ‘Sobre os Sonhos e Outros Diálogos’. Não sei se se aplicam a Gordon Douglas (não li), mas não duvido que sim. Estou misturando tudo, mas é assim mesmo. E toda essa viagem começou quando toquei no DVD de ‘Only the Valiant’…