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Cultura » Intuição genial de Sidney Lumet

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Luiz Carlos Merten

23 Outubro 2009 | 12h31

Silrone me pede que comente o lançamento, em DVD, de ‘Rede de Intrigas’. O filme de 1976 foi um dos primeiros – o primeiro? – a discutir seriamente as redes de televisão e sua influência como formadoras de opinião nos EUA. Arrisco a dizer que o diretor Sidney Lumet não era apenas o homem indicado para isso como estava numa das melhores fases de sua carreira. Lumet pertence à geração que a TV cedeu a Hollywood, na segunda metade dos anos 1950. De cara, ele aceitou algumas encomendas e, se isso terminou por estabelecê-lo como diretor ‘eclético’, também mostrou que não era um autor tão radical como Arthur Penn, que se situava muito mais à esquerda no espectro político norte-americano. Mas a carreira de Lumet, com seus altos e baixos, é muito respeitável e ele tem grandes filmes. É curioso que, desde a estreia, com ‘Doze Homens e Uma Sentença’, tenha se dedicado a questionar a Justiça e a instituição policial. ‘Doze Homens’ remete a ‘O Veredito’, outro filme de julgamento, e em matéria de tiras corruptos Lumet tem longa folha corrida de denúncias, com ‘Serpico’, ‘O Príncipe da Cidade’ etc. Pouco antes, ou imediatamente antes de ‘Rede de Intrigas’, Network, ele havia feito ‘Um Dia de Cão’, outro de seus filmes exemplares e no qual a televisão já era personagem importante. A TV armava o circo do dia de cão em torno da miséria humana, antecipando uma tendência que prossegue até hoje. Depois de mostrar isso, a TV de fora, Lumet foi vê-la de dentro e com a cumplicidade de um roteirista, o escritor Paddy Chayefsky, que também veio do teletubo e, como o cineasta, sabia sobre o que estava falando. Fiz a mediação de um debate sobre TV de sucesso no Brasil, no recente Festival do Rio, e é impressionante como, 33 anos depois – a idade da Mostra, coincidentemente –, as pessoas discutiam a ditadura do ibope, a ligação da Globo com a ditadura e a da Record com sei lá que bispo. Tudo isso já estava no filme de Lumet, que, neste sentido, foi ‘profético’. Faz tempo que não revejo ‘Rede de Intrigas’. Estou escrevendo de memória e uma imagem que me vem é a da libidinosa personagem de Faye Dunaway, que ganhou o Oscar pelo papel. A vertigem do sexo daquela mulher, o seu gozo do e pelo poder e, ao mesmo tempo, a certeza do que o público quer, após os traumas do Vietnã e de Watergate. Isso me leva a crer e, agora a afirmar – até vou rever o filme –, que ‘Rede de Intrigas’ talvez seja menos sobre a televisão do que uma intuição genial de Lumet (e Chayefsky) que perceberam, há mais de 30 anos!, que não existiam mais fronteiras nem países. Na era do meio como mensagem de McLuhan, o que determina a ação e o pensamento das pessoas é, ou melhor, são os conglomerados empresariais, as multinacionais. O mundo como negócio, hoje em dia se diz ‘mercado’. Já era o admirável – assustador – mundo novo, as nações da era da televisão, segundo Lumet. “Rede de Intrigas’ recebeu três ou quatro Oscars, o de Chayefsky e os de ator e atriz para Peter Finch e Faye. Ele foi, acho, o primeiro ator a receber postumamente o prêmio, décadas antes de Heath Ledger. Não sei se satisfiz ao pedido do Silrone, mas ele aguçou meu apetite. Espero ter deixado vocês – também – com vontade de reavaliar o mundo das ‘redes’.

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