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‘Intocáveis’, o original (2)

Luiz Carlos Merten

26 Março 2008 | 10h06

Pode parecer bizarro para vocês, mas tive sempre uma secreta – que agora vai virar pública – admiração por Phil Karlson, um pequeno diretor norte-americano que teve sua grande fase nos anos 50. Jean Tulard, em seu ‘Dicionário de Cinema’, o define como ‘príncipe dos filmes B’ e a verdade é que Karlson sempre foi melhor trabalhando com orçamentos limitados, em gêneros tradicionais da produção de Hollywood. Seus westerns e thrillers motivaram o culto que existe a ele – e se Tulard compara a violência de seus filmes aos de Anthony Mann e Richard Fleischer, no começo da carreira de ambos, a minha ponte é do Karlson com outro grande, Samuel Fuller. A mesma brutalidade, a mesma noção de que o importante é sobreviver na guerra que é a vida. Em 1955, Karlson fez um filme que virou um marco da criminalidade no cinema – ‘The Phenix City Story’, que no Brasil se chamou ‘Cidade do Vício’, era um policial semidocumentário sobre advogado que volta à cidade em que nasceu, ela está dominada pelo crime e ele resolve agir para restabelecer a lei e a ordem. Poucos filmes da época foram tão realistas (e brutais), mas foi a repercussão de ‘Cidade do Vício’ que levou Phil Karlson a ser cooptado para fazer na TV o violento ‘The Scarface Mob’, também chamado de ‘The Untouchables’, que foi o piloto da série da Westinghouse Desilu Playhouse, para a qual ele dirigiu mais dois episódios em 1959 (preciso checar no DVD, o que ainda não tive tempo de fazer, se não foi o próprio filme que foi subdividido em dois). Phil Karlson formatou ‘Os Intocáveis’ na TV, recebendo duras críticas de ítalo-americanos, que achavam que ele estava motivando o ódio aos imigrantes, com seus vilões de origem italiana. As críticas foram tantas que Karlson (ou a ABC, que produzia o show) resolveu diversificar a origem, ou etnia, dos vilões e sobrou para os russos, quando surgiu um Joe Vodka que arrebentava sem dó nem piedade. Estou louco para (re)ver ‘Os Intocáveis’, a série, mas agora não vou poder. Amanhã, viajo para o Chile, onde fico até domingo, e preciso deixar um monte de textos prontos nesta quarta-feira. A lembrança do Karlson me motivou para o que seria mais difícil – adoraria rever dois westerns dele. Um é ‘A Centelha’ (Thunderhoof), de 1948, com Preston Foster, do qual Jean Tulard destaca a atmosfera inusitada (um dos protafgonistas morre de febre tifóide) e o outro, ‘A Grande Cilada’ (A Time for Killing), de 1968, com Glenn Ford, George Hamilton e Harrison Ford (em princípio de carreira), que até onde me lembro era de uma violência de assustar o próprio Sam Peckinpah. Phil Karlson também dirigiu os dois filmes do agente Matt Helm, interpretado por Dean Martin, que surgiu nos anos 60, na trilha aberta por 007. Digam o que disserem, eu me divertia muito com o Dean Martin. Mas o personagem não pegou – o Harry Palmer de Michael Caine e o Flint de James Coburn também não pegaram. As mulheres do Karlson, de qualquer maneira, eram uma loucura. Stella Stevens e Daliah Lavi em ‘O Agente Secreto Matt Helm’ e Sharon Tate em ‘Arma Secreta contra Matt Helm’. Ainda não conferi os títulos mas não seria mau se algum Matt Helm integrasse a mostra dedicada a Dean Martin que ocorre no fim de semana, na cidade.