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Intensidade e religiosidade de Abel Ferrara

Luiz Carlos Merten

25 Abril 2012 | 13h07

Em São Paulo, o ciclo de Abel Ferrara começa hoje no Centro Cultural Banco do Brasil, em presença do diretor, que veio para um encontro com o público. Se entendi direito, o debate deve estar começando agora, uma da tarde. Bem antes disso, no dia 10, a programação começou no CCBB do Rio e, depois, dia 17, em Brasília. Todo Ferrara – a mostra contempla os 24 longas do autor, mais três curtas e dois episódios da série de TV Miami Vice. O título do evento não poderia ser mais sugestivo – ‘Ferrara e a Religião da Intensidade’. Justamente a intensidade se constitui numa marca – ou característica – dominante dos filmes de Ferrara. Extrapola a obra porque é um dado do próprio homem. David Cronenberg pode fazer filmes sobre os descontroles do corpo e da mente, mas é perfeitamente cool (e racional). Ferrara já teve problemas graves com drogas. A menos que tenha mudado, parece sempre à beira de um ataque de nervos. O release do evento sinaliza para isso ao assinalar os personagens preferidos do diretor – policiais corruptos, assassinos psicóticos, criminosos mesquinhos, gênios do crime. Cada um deles carrega um pouco dos vícios frenéticos do próprio Ferrara. É o título de um de seus melhores trabalhos – ‘The Bad Lieutenant’, refilmado por Werner Herzog, mas eu prefiro a versão de Ferrara –, embora possa citar outras obras que me marcaram, e marcaram o público. ‘O Rei de Nova York’, ‘Os Chefões’, ‘The Addiction’, ‘Olhos de Serpente’, ‘Go Go Tales’, ‘Napoli Napoli Napoli’ e ‘Maria’. E não me esqueço de ‘Os Invasores de Corpos’, remake do clássico ‘Vampiros de Almas’, de Don Siegel, dos anos 1950, que Ferrara situou numa base do Exército, mostrando alienígenas que se apropriam dos corpos e mentes dos militares. ‘Invasores’ passou em Cannes, onde ocorreu a maioria de meus encontros com Ferrara – houve um no Lido, quando ainda cobria o Festival de Veneza para o jornal.  Talvez a comparação com Cronenberg não seja despropositada, porque a disfunção do corpo e da mente por certo atrai o diretor. Mas ele tem ascendência italiana, como Martin Scorsese e Francis Ford Coppola. Na verdade, é uma mistura explosiva, essa de italianos com irlandeses. Uns e outros são marcados pela religião. O cristinianismo, até quando não praticado, introduz os temas da culpa e da remissão. Mesmo nos seus filmes que buscam a graça, como ‘Maria’, Ferrara parece imerso demais no inferno, que conhece bem. Sigo amanhã para o Recife, onde começa à noite o Cine PE. Se permanecesse em São Paulo, com certeza aproveitaria para fazer a revisão de Ferrara. Há vários filmes que me interessaria (re)ver. ‘Vício Frenético’, ‘Invasores de Corpos’, ‘Go Go Tales’ e ‘Napoli’, com certeza. ‘Maria’, também. Não consegui gostar da abordagem de Ferrara sobre a mãe do filho de Deus, quando vi o filme nos cinemas. Quem sabe, agora…