Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Insaciável!

Cultura

Luiz Carlos Merten

12 Setembro 2009 | 12h05

Completo hoje 64 anos. Sou o caçula de quatro irmãos, todos vivos. Não achei que duraríamos tanto. Afinal, o histórico familiar não era muito animador. Meu pai morreu com 40 anos, minha mãe com 50. Raramente penso neles. Já se passaram tantos anos… Mas agora, neste momento, ao escrever, senti um aperto no coração que me deu vontade de chorar. Gosto muito de comemorar meu aniversário. No ano passado, teve até bateria de escola de samba e uma ala de mulatas. Este ano, a comemoração será discreta, apenas um jantar com alguns amigos. Nem minha filha estará presente. Lúcia viaja à tarde para Porto, vamos só almoçar, daqui a pouco. Estou na redação do jornal, quase não tem ninguém nessa ala. Acabo de fazer uma viagem – a Monument Valley – que foi a concretização de um sonho. Sou um privilegiado, reconheço. Tenho conseguido realizar coisas que me pareciam sonhos remotos, impossíveis. O único problema com Monument Valley é que foi tudo muito rápido, corrido. Gostaria de ter ficado mais tempo e, a partir de agora, uma de minhas metas é voltar a Monument Valley e ficar mais tempo em Lake Powell, investigando de barco aqueles cânions que vi do alto, durante o vôo panorâmico. Meu amigo Dib Carneiro, que me acompanhou nessa viagem, diz que sou insaciável. É verdade. Gostei demais de Monument Valley e, na hora de ir embora, já estava no carro, rodando, quando me virei para ver aquele horizonte, o mais extenso e plano que já vi, mais que o pampa, no Sul, com aquelas elevações tão particulares. Não foi por acaso que Stanley Kubrick escolheu aquele horizonte para representar a aurora do mundo, em ‘2001’. Será que voltarei a Monument Valley? É uma meta, como voltar a Machu Picchu, por exemplo. Mas o ‘insaciável’ se aplica em outro contexto. Feliz como estava, por reencontrar ao vivo cenários que fazem parte de um imaginário esculpido no escurinho do cinema, ao chegar aqui já estava me lamentando. Perdi a peça do Patrice Chéreau! Gostaria de ter estado em Porto nesta semana para ver Dominic Blanc em seu monólogo de Marguerite Duras, ‘La Douleur’. Perdi a coletiva de Isabelle Huppert, ontem, porque cheguei muito tarde e tinha os textos para redigir, tive de vir correndo para o jornal, mas ainda consigo ver a peça dela e até rever na segunda, no Reserva Cultural, o ‘Villa Amália’ de Benoit Jacquot, que vi em Paris, em maio, na volta de Cannes. É tanta coisa para ver, rever. Mas Monument Valley foi super! Dib tirou 600 fotos. Vou garimpar algumas e a partir delas relatar um pouco da emoção que foi percorrer aqueles lugares míticos. Nas duas noites que lá permaneci, e foi demais ficar no Hotel Viey, inside Monument Valley, acordei durante a noite para espiar a paisagem pela janela. Vi aquelas mesetas ao luar e, depois, ao amanhecer, com o sol despontando por trás delas. Sinceramente, agora que escrevo, o que vi se mistura com o que sonhei no cinema. John Wayne, Maureen O’Hara, Ben Johnson, John Agar, Joanne Dru. Foi um belo presente de aniversário, o mais belo que poderia ter recebido. E aguardem minha foto no ‘John Ford point’, que o mestre, o Homero de Hollywood, usava para refletir ou para perscrutar, no horizonte, os lugares em que ia colocar a câmera. passam cinco do meio-dia. Estou feliz da vida neste dia 12.