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Luiz Carlos Merten

29 Novembro 2011 | 10h15

Ontem, ao redigir rapidamente o post sobre Ken Russell, surpreendeu-me que outro diretor inglês dos anos 1970, Michael Winner, tenha sido chamado a fazer um comentário sobre a morte do colega (e, imagino, amigo). Michael Winner! Nem me lembrava que estivesse vivo. Embora o cinema inglês tenha tido seus diretores prestigiados ou prestigiosos nos anos 1940 e 50 – David Lean, David Lean, David Lean, mas também Carol Reed, Alexander Mackendrick e, um pouco menos, Basil Dearden –, a revolução do Free Cinema, com Lindsay Anderson, Karel Reisz e Tony Richardson, não provocou o mesmo entusiasmo da nouvelle vague, por exemplo. Depois, a cada dez anos, foram surgindo ou se estabelecendo novos cineastas, Michael Winner, Peter Collinson e Ken Russell, Stephen Frears e Ken Loach etc. Lembro-me que, em Porto, tinha um colaborador e o cara me foi mais ou menos imposto por Jefferson Barros, que havia sido o titular do espaço que herdei. Ele veio, por assim dizer, junto. Era um bom cara, mas não tínhamos muitas afinidades. Ele adorava Collinson, e eu não conseguia entender aquele entusiasmo por ‘O Apartamento dos Sádicos’ nem por ‘Na Encruzilhada’ ou ‘Quatro Devem Morrer’. Dois falsos funcionários da companhia de gás aterrorizavam um casal na ‘penthouse’. Fiz uma pausa e fui procurar o que diz Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, sobre Collinson e seu ‘Apartamento’. ‘Pouquíssimas vezes o cinema foi tão longe no sadismo’, ele escreve. ‘Na Encruzilhada’ costuma ser comparado a ‘Alfie’, a primeira versão, com Michael Caine – seria um ‘Alfie’ tardio. A mesma falta de perspectivas, a vida como uma sucessão de encontros sexuais vazios, um aborto aqui, uma indagação existencial ali. ‘Quatro Devem Morrer’ mostra a guerra como um labirinto, com ecos de ‘Glória Feita de Sangue’, de Stanley Kubrick. Collinson fez depois ‘Assalto à Milanesa’, The Italian Job, refilmado com Mark Wahlberg, ‘Corruptos e Sanguinários’, ‘Uma Noite de Pânico’ e foi indo pro brejo. Quando morreu, em 1980, aos 42 anos, poucos cinéfilos devem ter chorado por ele. O caso de Michael Winner talvez seja pior. “Depois que Tudo Começou’ é visionário, pelo menos no meu imaginário, na crítica à sociedade de consumo que aliena as pessoas. ‘Renegado Impiedoso’, Chato’s Land, com Charles Bronson, é western de uma violência que faz Sam Peckinpah parecer hiostória da carochinha e ‘Os Que Chegam com a Noite’, com Marlon Brando, é curioso pelo simples fato de propor um ‘prólogo’ ao cultuado ‘Os Inocentes’, de Jack Clayton. ‘The Nightcomers’ saiu há pouco em DVD e é bem interessante, com um clima perverso. E aí, cooptado por Hollywood, Michael Winner começou a fazer policiais, um atrás do outro. ‘Assassino a Preço Fixo’ tinha Burt Lancaster na pele do profissional que inicia garoto na profissão e Jan-Michael Vincent é contratado para matá-lo. Não me lembro qual, mas vi há pouco um filme que me pareceu um remake disfarçado. ‘Scorpio’ traz uma complicada trama de espionagem, mas, com aquele elenco – Lancaster, Alain Delon e Paul Scoffield –, não dá para desgrudar o olho da tela. O problema é que Winner virou homem de confiança de Charles Bronson– e iniciou a série ‘Desejo de Matar’. Seu remake de ‘The Big Sleep’, de Raymond Chandler, não vale a versão de Howard Hawks (‘À Beira do Abismo’) nem Robert Mitchum se compara a Humphrey Bogart, mas Sarah Miles e Oliver Reed são bons e o elenco ainda ostenta uma impressionante galeria de veteranos (James Stewart, John Mills, Richard Boone, Harry Andrews, Richard Todd etc). Com alguma tolerância, pode-se divertir com ‘A Arte de Matar’, título brasileiro, e a trama é mais fiel ao original. Vejam que a morte de Ken Russell me trouxe a nostalgia de toda uma leva do cinema inglês. Russell, até por seu exagero – o livro a que me referi ontem, sobre o cinema dele, chama-se ‘Phallic Frenzy’ –, é a exceção dessa turma. Podem ser pontuais, mas ele tem coisas realmente muito boas. E era um provocador nato, numa cinematografia, a inglesa, que tendia a ser conservadora. O que me leva a evocar uma piada de ‘Cahiers’, na fase de capa amarela. É um edição, antiquíssima, que comprei num sebo, porque é quase toda dedicada a Michelangelo Antonioni – que estava estreando ‘A Aventura’. Guardo como preciosidade. ‘Cahiers’ cita lá no fim, em duas linhas, não me lembro qual filme em lançamento. O comentário é sucinto – “o único inglês do mês, o que nos deveria incitar a ser magnânimos, mas é ruim, como sempre.”